sábado, 11 de outubro de 2014

Lech Lechá: retornando ao começo

Crianças lhe foram trazidas para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas, mas os talmidim repreendiam as pessoas que as traziam. Entrentanto, Yeshua disse: ‘Deixem as crianças chegar até mim e não as impeçam, porque o Reino do Céu pertence a quem é como elas’. Depois de lhes impor as mães, seguiu seu caminho”.
Mattityahu 19:13-15 (BJC)

Eu acho que quase sempre as crianças são muito sinceras, principalmente quando se encontram em um determinado ambiente em que se sentem à vontade. Sempre falam coisas que talvez um adulto não fosse falar, são extremamente sinceras, não apenas com os outros, mas penso que são sinceras consigo mesmas. Parece que elas sabem quem são, qual Mazal é o delas e quais ferramentas elas têm pra cumpri-lo, qual missão elas devem cumprir aqui nesse Mundo. Recordo-me de quando era criança. Era um garoto esperto e bagunceiro. Não parava quieto, gostava muito de falar e de fazer os outros rirem. Amava quando me achavam engraçado. Amava desenhar – principalmente desenhar sapos – e não escondia de ninguém que minha cor preferida era (e ainda é) o verde. Além disso, amava animais. Entre meus familiares (principalmente entre meu irmão e primos) e entre os amiguinhos de infância era um carinha falador, extrovertido e que “liderava” a bagunça. Veja a foto ao lado: era o próprio “Pestinha”[i] brasileiro! Quando tinha entre nove e onze anos de idade li talvez mais de 20 vezes o livro “Menino Maluquinho” do Ziraldo[ii]. Gostava bastante do final do livro, onde era dito algo do tipo “o Menino Maluquinho cresceu e percebeu-se que ele não havia sido maluquinho e sim uma criança feliz”. Acho que era assim que acabava o livro, mas não tenho certeza agora. Mas de qualquer forma, foi essa a mensagem que ficou pra mim. Eu queria crescer e olhar para trás e ver que eu havia sido um “menino feliz”. Hoje, eu acho que fui.
Até que veio a adolescência. Acho que por ficar com muito receio de as garotas não se interessarem por mim, pela minha forma de ser, comecei a me fechar. Minhas verdades infantis, aquilo que eu sabia sobre eu mesmo foram deliberadamente soterradas com a lama da mediocridade. Mediocridade, como me explicou a Dra. Ana Mariza Fontoura Vidal, é aquilo que é médio, aquilo que massifica e retira as individualidades. Assim, de uma criança extrovertida, passei a ser um adolescente introvertido; de engraçado a chato; de otimista a pessimista; ao final da adolescência e início da juventude, desenhar se tornou mais raro. Até mesmo meu gosto por verde passou batido por uns anos: me forcei a comprar roupas de outras cores, mesmo sem querer usá-las. Tentava deixar de ser “eu mesmo” em diferentes níveis e me diluir na Grande Massa, nem que fosse na marra. Só que não deu certo.
Como é difícil isso de fazer Lech Lechá[iii], de “ir ao encontro de si mesmo”. A tradição judaica diz que as crianças têm uma percepção muito elevada do mundo espiritual. Recordo-me de um texto que o Rabino Nilton Bonder conta uma história em que pessoas de diferentes idades falando da lembrança mais antiga que possuíam. Ao final da história, via-se que a pessoa quanto mais nova fosse, mais ela lembrava da vivência espiritual que tinha tido antes de nascer, do “Banco de Almas” por assim dizer. Quanto mais velha, menos se lembrava, entretanto, mais próxima estava de retornar ao lugar separado pelo Eterno, bendito seja. Quero me focar no primeiro caso. Acho que isso faz muito sentido no contexto que Yeshua colocou: quem não retornar a “ser como criança” não pode herdar esse Reino, que colocarei em um sentido metafórico. Nesse forma que coloco, esse Reino é o cumprir a vontade do Supremo Rei. Aquele que cumprir Sua Bendita Vontade certamente herdará um bom lugar em Seu Reino. Como as crianças chegaram nesse mundo há pouco tempo, elas sabem, teoricamente, melhor que os adultos qual é a Vontade do Rei, bendito seja Ele.
O livro “O Sagrado” [iv] é um livro muito bonito. Fala do “segredo do segredo”. Eu não vou contar o que é o “segredo do segredo”, acho que vale a pena ler o livro. Enquanto lia, percebi que muita coisa que pensava quando criança possui validade hoje. E que eram verdades mais profundas que as verdades que fui adquirindo no lamaçal da mediocridade. Talvez possa ser esse um dos sentidos de quando Yeshua disse sobre “nascer de novo”. “Nascer de novo” é uma possibilidade de se retornar a essa Infância – e de que de lá ninguém saia. Acho que hoje meu trabalho é meio de paleontólogo: com um delicado pincel, preciso ir cavucando e retirando esse Lamaçal, com muito cuidado para não danificar o precioso material que ficou soterrado. É necessário deixar à mostra o que foi desenterrado e expressar a individualidade. Como disse o Rabino David Aaron[v], é apenas assim que podemos expressar o nosso amor, seja pelo Rei, seja por nossos semelhantes.
Concluo lembrando-me da Dra. Ana Mariza, me contando sobre a percepção que teve ao visitar um museu sobre Pablo Picasso: “ele passou a vida inteira para aprender a pintar como Criança...”

Edgard MacFraggin’





[i] Personagem Júnior, do filme “O Pestinha”(Problem Child), EUA, 1990.
[ii] Editora Melhoramentos, 1980.
[iii] Parashá Lech LecháBereshit (Gênesis) 12:1-17:27.
[iv] Do Rabino Nilton Bonder, Editora Rocco, 2007.
[v] “O Amor é Minha Religião” (Love is my Religion), editora Sêfer, 2003.

sábado, 9 de agosto de 2014

O Estreito Caminho do Lech Lechá

              Tenho refletido de uns tempos pra cá na temática do Lech Lechá, da alteridade, de servir ao Eterno de forma pessoal no sentido da identidade que Ele deu a cada um. Penso que tudo isso conversa entre si e é a forma que temos de cumprir nosso Tikun, de ser a forma de cumprir a missão individual que o Eterno nos deu, de consertar a parte fraturada do mundo que cabe a cada um.
                Não sei todos os leitores conhecem o conceito de Lech Lechá (lê-se Ler Lerrá – sendo esse rr com som gutural, semelhante à algumas pronuncias do francês). É um conceito profundo do Judaísmo. Esse é o título de uma parashá (porção semanal) da Torá, porção encontrada em Bereshit (Gênesis) 12:1-17:27. Ali é contada o famoso chamado que D’us fez a Abraão, o “sai da tua terra e da tua parentela...”. Mas Lech Lechá pode ser traduzido como “vá ao encontro de você mesmo”. Estranho, não? Mas é aí que reside o significado profundo do termo. O Eterno sabia que o destino de Abraão era ser pai de uma grande nação, era viver fora da Babilônia, era ter Isaac, etc. Mas Abraão era completamente diferente dessa descrição no início de seu relato. Se ele não saísse “da terra e da parentela” ele seria alguém diferente do que o Eterno tinha para ele. É como se ele não fosse ele mesmo, pois o destino de Abraão era ser um Patriarca. Mas ele só atingiria isso se ele deixasse a situação confortável em que ele vivia, se ele se sacudisse, se levantasse e lutasse para atingir o potencial daquilo que o Eterno havia permitido para ele.  Nesse sentido, cada um de nós tem um Lech Lechá a fazer. E isso tem tudo a ver com alteridade, com individualidade, com um relacionamento pessoal e único com o Espiritual.
                Nesse sentido de Lech Lechá, estive pensando sobre o que Yeshua queria dizer sobre os dois caminhos, o largo e o estreito. Quero mostrar uma outra possível interpretação de todo o capítulo VII do livro de Mattityahu (Mateus), analisando todos os versículos à luz dos versículos 13 e 14, que é quando Yeshua cita esses dois caminhos. A interpretação que darei será diferente da interpretação usual dada aos versos 13 e 14, o que possível de ser feito sob uma ótica de interpretação bíblica judaica. Vou seguir o texto analisando os versículos em blocos, então sugiro para um melhor entendimento uma leitura prévia ou simultânea do capítulo VII de Mattityahu (Mateus). 
·         Versos 1 a 5: Yeshua começa mostrando algo do tipo “cuide da sua vida. Concentre-se em você mesmo, não nos outros. Cuide de realizar o Seu Caminho, Sua Missão, Seu Mazal, Seu Destino.” Desobedecer a esse ponto trará, certamente, tristes consequências.
·         Verso 6: Aquilo que é sagrado é, por definição, aquilo que é separado. No contexto de Lech Lechá, o que há de mais separado para alguém é a sua própria individualidade. Nenhuma outra pessoa possui uma individualidade como a tua. Abrir mão dessa individualidade é abrir mão do Lech Lechá. É dar sua própria vida aos cães, e, caso faça isso, eles a destruirão.
·         Versos 7 a 11: “Peçam continuamente...” Devemos continuamente buscar ao Eterno, perguntando-Lhe qual é o Nosso Caminho. Pois se pedirmos que Ele nos abra uma porta, Ele irá abrir não uma porta qualquer, mas a Porta pela qual devemos entrar, a Porta de nosso próprio Lech Lechá. Ele é nosso Pai: Ele abre as portas boas e fecha as portas más.
·         Verso 12: Yeshua ensina que devemos respeitar a individualidade dos outros, pois cada um de nós aprecia e gosta que nosso individualidade seja respeitada.
·         Versos 13 e 14: Nesse ponto Yeshua trás o magnífico conceito dos Dois Caminhos. Em relação ao Caminho Estreito, uma possível interpretação seja de que ele seja diferente e único para cada um de nós. Ou seja, ele é estreito justamente por apenas uma pessoa poder passar por ele e nenhuma outra. O Caminho Largo é acessível a todos, pois é o Caminho da Massificação, o lugar em que se perde a identidade e passa-se a fazer parte da grande massa – uma massa metafórica em que os ovos, o açúcar, a farinha, a manteiga e o fermento perderam todos a sua própria identidade e se tornaram uma massa única e indistinguível. É esse Caminho Largo o lugar onde as pessoas deixam a Missão que o Eterno as deu, visando seguir o que é mais fácil e cômodo. É o caminho que está em oposição ao Lech Lechá e que conduz à perdição, pois se não seguirmos os Planos do Eterno para nós, estaremos perdidos. “Poucos entram no Caminho Estreito”, disse Yeshua, não por conta de sua estreiteza (pois, nesse sentido, há um “Caminho Estreito” para cada um de nós), mas pela dificuldade que é cumprir o Lech Lechá, o “sair de nossa terra e de nossa parentela”. Fazer o que todo mundo faz, perder a individualidade, ser massificado, andar pelo Caminho Largo é muito mais fácil e confortável que trilhar na contra-mão do sistema, que andar pelo Estreito Caminho do Lech Lechá.
·         Versos 15 a 20: Uma vez que estiver no Estreito Caminho, tome cuidado com as pessoas que se aproximarem de você. Pode ser que eles queiram te oferecer um alimento apetitoso aos olhos e talvez até mesmo ao paladar, mas que será ruim a longo prazo, visto que esse alimento irá te engordar de tal forma que ficarás metaforicamente entalado no Caminho Estreito, tendo que perder tempo com dietas ou correndo o risco de ficar tão gordo que terás que ir pelo Caminho Largo.
·         Versos 21 a 23: Não é todo mundo que diz que cumpre seu Lech Lechá que realmente o cumpre. Baseado no bloco de versos anterior, analise os frutos dessa pessoa, se são frutos de alguém que preserva e faz o bem através de sua individualidade, ou se são frutos de alguém que demonstra frutos de origem massificada.
·          Versos 24 a 27: Existem testes diferentes em tipo e intensidade separados desde o Princípio pelo Eterno para cada um de nós, independentemente de qual dos dois Caminhos iremos trilhar. No Caminho Estreito de cada um estão as ferramentas apropriadas para se proteger desses testes. No Caminho Largo, as ferramentas são impróprias e inúteis. Um homem estava destinado desde o Início dos Tempos a enfrentar uma terrível tempestade. Se ele fosse pelo Caminho Largo, iria encontrar apenas a possibilidade de construir uma casa sobre a areia, quando a tempestade viesse, ele estaria arruinado. Se tomasse seu próprio Estreito Caminho (Lech Lechá) ele teria a chance de construir a casa sobre a Rocha: quando a mesma tempestade viesse, ele estaria protegido. Essa parábola demonstra o poder do Lech Lechá.
·         Versos 28 e 29: o capítulo acaba lindamente ao dizer que “as pessoas admiravam esses ensinamentos de Yeshua, pois ele não ensinava como os ‘outros’ ensinavam, ele transmitia seus conhecimentos com uma ‘autoridade’ própria”, ou seja, a autoridade que alguém possui por andar em Seu Próprio Estreito Caminho – e essa autoridade (a Autoridade de alguém que é Autor) só pode ser obtida assim.


Edgard MacFraggin’ 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Rock’ N’ Roll: a Origem do Ódio

               As pessoas que me conheceram no final da adolescência perceberam um período de mudança intensa a respeito de minha pessoa. Eu estava deixando de ser aquele menino gordinho com cabelo “cogumelo” e me tornando um jovem adulto de cabelos longos, roupas pretas, correntes e muito Rock N’ Roll nos ouvidos. Realmente, o Rock’ N’ Roll é um estilo que trás arraigado a si mesmo o “ser rebelde”.
                 Cansei-me de escutar pessoas de diferentes religiões afirmando categoricamente que Rock é “coisa do diabo”, que é algo mal, que ninguém que serve a D’us deveria escutar. Eu acho interessante que muitas pessoas acham que eu deixei de ser roqueiro. Não foi porque eu cortei o cabelo que eu deixei de gostar do estilo. Creio que eu sou mais roqueiro do que antes, inclusive: nesse período conheci novas bandas e tenho curtido novos estilos. É incrível ver como esse assunto é tratado como um tabu religioso. Até hoje.  
                Mas qual a “Origem do Ódio” ao Rock? Vale a pena a leitura dessa dissertação do Sr. Eric Vaillancourt (2011), intitulada “Rock ' n' Roll in the 1950s: Rockin' for Civil Rights” (“Rock’ N’ Roll na década de 1950: balançando pelos Direitos Civis”. Para ver a dissertação, clique aqui). Ele pontua algo que eu temia ser a razão de tanto ódio desmedido contra o estilo. Mas, para falar disso, devemos entender a origem do Rock, como tudo começou.
                Nos EUA até a década de 1950, havia um enorme sentimento racista. Negros e brancos não podiam ficar juntos dentro de ônibus, não frequentavam os mesmos parques e nem mesmo as mesmas igrejas. A música que os brancos escutavam era diferentes da música dos negros. Naquela época, os negros americanos tinham um estilo musical próprio, o Rhythm and Blues [R&B] (de 1950, hoje o estilo é bem diferente do que era). Imaginem a “abominação” na cabeça dos brancos a ideia de escutar R&B. Entretanto, os adolescentes brancos daquela geração começaram a ter contato com o estilo e a gostar. Passaram a frequentar locais que os negros frequentavam. Daí, quando um homem branco chamado Elvis Presley começou a cantar R&B foi que “nasceu” o Rock. Digo “nasceu” pois ele já existia, os negros já o cantavam há muito tempo. Mas pra ter aceitação entre os brancos, foi necessário que se mudasse o nome. Até hoje o R&B é associado à musica negra, afro-americana.
                Os pais daqueles adolescentes ficaram loucos com isso. Seus filhos estavam escutando música de quem eles julgavam serem inferiores! E daí começa o lance da rebeldia. Os adolescentes brancos se rebelaram contra seus pais em prol de escutar Rock. E isso permitiu grandes avanços sociais em prol dos negros americanos. Naquela geração, brancos e negros começaram a reatar os laços, começaram a andar juntos. Hoje, eles têm um presidente negro! Isso certamente era inimaginável naquela época.
                Talvez, por conta do avanço dos Direitos dos Negros, falar que não se deveria escutar Rock pois era música de negros poderia soar certamente racista. Qual a solução? Coloque a culpa no “diabo”. Pra terem uma ideia, Elvis Presley e Larry Norman foram acusados de ser satanistas, servos do mal, etc. Escutem a música deles. Elas são bem “leves” perto de estilos que temos atualmente. Eles foram acusados injustamente. Vejam as letras das músicas. Não tem nada de mal nelas. Muitos outros grupos foram acusados e até hoje esse “papo” rola.
                Não estou aqui pra tapar o sol com a peneira e afirmar que “não existe nenhuma banda/grupo que tenha material ligado a demônios”. Existem realmente algumas bandas que colocam temáticas satânicas em suas letras e fazem coisas más perante o que a Torá ensina. Mas não são todos. Existe muito Rock’ N’ Roll que tem letras boas. Eu acho que as pessoas não conhecem praticamente nada do estilo e já saem tacando pedras aos montes, condenando o que nem conhecem. Cansei de escutar isso.
                Certa vez me apresentaram uns dados de pesquisas que mostravam que Rock e Rap fazem literalmente mal à saúde. Me falaram de dois experimentos diferentes, os quais desconheço as fontes originais. O primeiro foi com ratos. Colocaram os ratinhos pra escutar Rock e eles começaram a se canibalizar! A conclusão era de que o Rock os enlouqueceram ou algo do tipo e eles ficaram agressivos o que levou ao trágico fim dos roedores. Entretanto, não é assim que se analisa resultados de pesquisas. Não é assim que se faz Ciência. Qual foi o resultado encontrado no grupo controle? Por exemplo, imaginem que tinham dois grupos de ratos. O grupo 1 escutava Rock e o grupo 2 era o grupo controle, ou seja, eles não escutavam nada. Daí foi observado que nos dois grupos os ratos se canibalizaram. Assim, não se pode concluir que “escutar Rock” seja um fator que induza ratos a se canibalizarem. Ainda que os ratos tenham se destruído apenas no grupo 1, deveriam testar outros estilos musicais. Daí vamos supor que o grupo 1 escutava Rock e o grupo 2 escutava música Judaica e ambos se canibalizaram. Ou que qualquer que fosse o estilo colocado os ratos se canibalizavam. Daí, pode-se concluir que ruídos estranhos (oras, música não é um estímulo feito para ratos e sim para humanos!) estressam os ratos e eles se canibalizam. Ainda que isso seja verdade, tenho minhas dúvidas quanto a validade da extrapolação desse dado de ratos para humanos: somos espécies completamente diferentes.
                O outro experimento que me falaram a respeito foi um com mulheres gestantes. Os pesquisadores colocaram um head-phone encostado na barriga das moças gestantes e ligaram músicas do estilo Rap. Eles observaram que os pobres fetos “empurravam” contra a parte interna da barriga, como que querendo afastar esse som horrível de perto deles. Novamente, encontramos o mesmo problema anterior: não se analisa ciência dessa forma. Qual o resultado do controle negativo? Usaram outros estilos musicais? Quais os resultados deles? Eu acredito que não importa qual fosse o estilo musical colocado, eu acho que os fetos se sentiriam provavelmente bastante incomodados. Sabe aquela história de “não bata no aquário”? As ondas sonoras se propagam com mais intensidade em meios líquidos e sólidos do que no ar. Assim, realmente deve ensurdecedor para um bebê colocar um head-phone na barriga de sua mãe pra ele escutar, não importa qual música seja. O meio em que ele está é basicamente sólido e liquido, qualquer tipo de música deve chegar de maneira ensurdecedora lá dentro.  Mas daí novamente ficou de vilão o Rap, que faz mal pros bebezinhos.
                Outro ponto relevante é que não é apenas no Rock que existe material ligado ao paganismo (repito que não são todas as bandas). Existe muita música instrumental clássica que os compositores se basearam em deuses pagãos para compor. Só porque a música não tem letra não significa que o compositor não tinha ligação com o paganismo. Eu fico admirado em ver que um monte de gente que fala mal de Rock, Rap, etc, diz que gosta de música clássica. Às vezes, está escutando música pagã e nem sabe.  
             Alguns pensam que não devemos escutar música não-religiosa pois não conhecemos a intenção que o compositor da música teve ao escrevê-la. Assim, supõe-se que qualquer música de estilos como Rock, Metal, Rap, etc, sejam intrissicamente más, enquanto que qualquer música judaica, no caso dos judeus, e cristã, no caso dos cristãos, seja automaticamente boa. Só que há um grande problema nessa lógica: não dá pra saber a verdadeira intenção que os compositores tiveram ao compor. Assim, o máximo que consiguimos alcançar é supor que o compositor de música-religiosa teve uma boa intenção ao compor. Assim, pode até ser que um compositor tenha tido uma má intenção ao compor uma música, que tenha por exemplo colocado mensagens subliminares por trás da letra ou algo nesse sentido e nós talvez nunca iremos saber. Eu prefiro ter, pessoalmente, uma abordagem de ter um peso e uma medida. Eu não escuto músicas que falem positivamente ou que façam apologia ao que a Torá proíbe. Se uma música fala de idolatria, adultério, etc, eu não escuto. Fora isso, não vejo problema. Eu não sou capaz de julgar a intenção do coração de ninguém. E eu acho que pensar que músicas religiosas são automaticamente boas e que músicas não-religiosas são automaticamente ruins é usar dois pesos e duas medidas, pois é impossível saber qual era a intenção do coração do compositor religioso ou do secular. Eu não posso ser injusto e cometar tamanho pecado de me colocar como juíz das intenções alheias.     
                Eu conheço cristãos que acreditam que escutar música não-cristã é pecado. Eu conheço judeus que acreditam que escutar música não-judaica é pecado. Deve existir muçulmanos que pensem de modo semelhante, eu não conheço muitos muçulmanos. Se alguém quer se abster de música não-cristã ou de música não-judaica, no sentido de fazer um voto, muito bom, você está de parabéns e espero que se mantenha firme nesse propósito. Agora, afirmar que escutar Rock é pecado é uma coisa muito diferente. Por acaso a Torá proíbe escutar Rock? Proíbe escutar Rap? Não e não. Assim, não pode ser dito que é pecado escutar. Demonizar o Rock é pegar carona no sentimento racista, de ódio aos negros. Foi aí que começou esse ódio ao Rock. Que o Eterno nos livre disso.
                  Ainda, quem disse que ser rebelde é necessariamente ruim? Contaram-me uma vez uma parábola de um homem que tinha como destino derramar sangue. Não necessariamente isso era algo ruim. Ele podia ser um homicida ou um cirurgião. Podia matar ou salvar vidas. Ambas as atividades derramam sangue. Ser um rebelde contra um sistema sujo e corrupto é algo bom. Ser rebelde contra o pecado é algo bom. Por conta do Rock, muita coisa na sociedade mudou pra melhor, entre elas o reconhecimento de negros e brancos são iguais. Acho que Pai Abraão seria um bom roqueiro: ele pegou um martelo e se rebelou contra seu pai quando destruiu os ídolos que este fabricava. Isso é ser rebelde pro lado bom. Yeshua foi outro grande rebelde de seu tempo. Ele se rebelou contra a hipocrisia que estava presente em alguns daquele tempo. Ser rebelde não é intrinsicamente algo mal.
                Quanto a ter cabelos grandes, brincos e tatuagens: isso tudo é permitido aos não-judeus. Um não-judeu pode ter cabelo grande, usar brincos e se tatuar pois as 7 Leis de Noé não proíbem isso. Assim, todos esses roqueiros podem servir tanto ao Eterno quanto qualquer judeu, por exemplo. Querer forçar qualquer coisa que esteja além das Leis Noéticas aos não-judeus é considerado transgressão pelos Sábios Judeus e também Yakov condenou isso em Atos 15.
                Apesar do estilo “agressivo” de alguns roqueiros, eu acho que as pessoas mais doces e amigáveis que eu conheci eram roqueiros. Diversos amigos meus que eu conheci antes de fazer o retorno ao Judaísmo continuaram a ser  meus amigos depois do retorno. Respeitam minha religião, se preocupam quando vamos fazer alguma refeição juntos (por conta da cashrut), etc. Coisa que eu não vi presente em um monte de gente que não escuta Rock – e se bobear que até abomina o estilo. De que adianta isso? A santidade de alguém não reside no comprimento de sua barba ou de seu cabelo, em usar roupas pretas ou roupas brancas. A santidade transcende tudo isso.
                Se alguém quiser sugestão de músicas, deixe um comentário aí embaixo que eu mostro algumas que eu gosto bastante.
                Fiquem na paz,
Edgard MacFraggin’


Eu no início de 2011.

domingo, 20 de julho de 2014

Preciosas Janelas da Vida


Eu com a vovó Zilda - aproximadamente em 2005. 
 Recebi hoje a triste notícia de um amigo: sua avó, de abençoada memória, faleceu ontem. Lembro-me bem dela, lembro-me das vezes em que estive na casa de meu amigo e dos bons momentos que passamos juntos, de quando ela estava lá, das refeições que fizemos e das preces que rezamos juntos. Fiquei o dia hoje pensativo, e é meio inevitável lembrar de minha avó Zilda, de bendita memória. Ela faleceu em 2009, no final daquele ano, e deixou em nós uma saudade sem fim. Parece que esse ano para mim está cheio desses eventos. É a quarta pessoa querida para mim que falece esse ano.

                Acho que mais ou menos uma hora atrás estava pensando nisso: dificilmente um contemporâneo chega aos 20 anos de idade sem nunca ter vivenciado esse amargo sentimento de luto por conta de alguém próximo. Quando minha avó faleceu, eu tinha 22 anos de idade. Eu acho que ela chegou a viver uns 70 e poucos anos, entretanto, para mim, ela viveu apenas 22 anos. Durante 22 anos apenas eu pude desfrutar de sua presença. E acho que esse dado é muito mais válido e palpável para mim do que dizer que a expectativa de vida do homem moderno é de 80 anos de idade. Oitenta anos nada: são apenas 22, ou 10, ou 13, ou melhor, a somatória dessas frações. Acho que assim fica melhor explicado.

Eu (a esquerda), meu irmão (a direita) e o Donald
possivelmente em 2004/2005.
                Falando em tristeza, tenho, particularmente, passado dias tristes com relação ao meu cachorro, o Donald. Ele tem 14 anos de idade, está velhinho, tendo problemas de saúde recentemente. Muito provavelmente ele não tem mais muito tempo pra passar com a gente, infelizmente. Quando o Donald chegou em nossas vidas, eu tinha 13 anos de idade, foi em Junho de 2000. Eu posso me recordar desses últimos 14 anos com ele: ele estava lá quando eu terminei o Ensino Fundamental, ele estava lá quando eu terminei o Ensino Médio; ele estava lá quando eu me formei em Veterinária e ele estava lá quando terminei o Mestrado. Em mais da metade da minha vida ele esteve presente. E como foram momentos preciosos. Esses tem sido dias em que eu tenho pensado em qual o motivo da vida animal ser tão preciosa para nós. Não estou desmerecendo a vida humana – lembrem-se, uma coisa não anula a outra, ok? A questão é que eu convivi mais com meu cachorro do que eu convivi com alguns amigos que passaram pela minha vida. Quando minha avó faleceu, meu primo mais novo, por exemplo, tinha 12 anos de idade mais ou menos. Ou seja, eu convivi mais tempo com meu cachorro (de meus 13 anos até o presente – tenho 27 agora) do que meu primo conviveu com a vovó. Ainda, do início da minha convivência com o Donald eu tenho uma lembrança bastante clara. Dos 12 anos que esse meu primo conviveu com a vovó, talvez ele se lembre cerca de 6 anos apenas (estou deduzindo isso da lembrança mais antiga que tenho de minha avó, que foi em meu aniversário de seis ou sete anos, quando ela me deu de presente uma fatia de bolo confeitado e uma lata de Sprite! Que presente inesquecível, um dos melhores que eu já recebi!). Quando eu nasci, ninguém me disse que eu poderia conviver com a vovó por apenas 22 anos. Acho que subconscientemente me ecoava que poderia conviver com ela pelos 80 anos de expectativa de vida da mulher brasileira. Percebo assim que eu não tenho tanto tempo como eu imagino pra conviver com aqueles a quem eu amo.
                E eu acho que esse é um dos motivos pelos quais a convivência com familiares, com amigos e com os animais é tão preciosa. São janelas que inesperadamente se abrem em nossas vidas e depois se fecham abruptamente. Janelas preciosas, emolduradas em diamante, que deixam uma luz elevada nos iluminar durante algum tempo em nossas vidas. Talvez seja apenas a sequência dessas janelas que faça a vida valer a pena ser vivida. De que adianta viver 80 anos se não for pra cultivar relacionamentos, cuidar dos tristes e feridos, dar risadas, contar piadas, se alegrar, chorar e se emocionar?

???


Edgard MacFraggin' – em memória de minha avó e da avó do meu amigo.  

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ter depressão: um terrível pecado

Ter depressão é pecado. Transtornos de humor e psicológicos, bipolaridade, pânico, etc, também são todos pecados. De igual modo, ter dor de barriga, unha encravada, cólicas menstruais, infarto do miocárdio, espinhas no rosto, diarreia, desidratação, náuseas, pressão alta, osteoporose, obesidade, reumatismo, bronquite, pedra nos rins, colesterol alto, gripe, caquexia, etc, é tudo pecado também. Quem fica doente é um pecador.
Sei que o primeiro parágrafo teve uma construção bastante absurda. Mas infelizmente, muitas pessoas, de diferentes religiões, acreditam que ter transtornos ligados ao Sistema Nervoso Central seja pecado, e um dos mais graves pecados. Eu acho que, pelo menos atualmente, qualquer um que tenha religião - seja judeu, cristão, muçulmano, o que for - quando tem algum problema de saúde procura um médico. Se alguém quebra um braço, não vê nenhum problema em ir ao hospital colocar uma imobilização ou algo do tipo. Se tem dor abdominal, certamente toma um chá, ou algum medicamento para alívio das dores. Parece-me as vezes que, no discurso de alguns religiosos, uma pessoa pode ter problemas patológicos em quaisquer sistemas do organismo - cardiovascular, respiratório, digestório, articular, urinário, etc - que é algo aceitável, passível de tratamento, de tomar medicação sem nenhum problema. Agora, se alguém apresenta algum distúrbio no Sistema Nervoso (no sentido fisiológico do termo, como qualquer outro dos Sistemas do organismo) é porque essa pessoa é "pecadora", porque é "um pecado ter doenças ou patologias neurológicas". Já estou cansado de ouvir pessoas dizerem que "ter depressão é pecado". Isso me faz lembrar bastante da Idade Média, em que as pessoas acreditavam piamente que crises epilépticas eram na verdade uma possessão demoníaca! Mas, naquela época, a ciência não era tão avançada quanto hoje e nem métodos diagnósticos tão bons.
Algum tipo de pecado é responsivo a tratamento medicamentoso? Será que um adúltero pode tomar um remédio e parar de adulterar? Ou um idólatra tomar uma injeção e abandonar a idolatria? Sabe-se que pessoas em crise psíquica respondem a tratamento medicamentoso, logo, existe uma base patológica por trás desses problemas. Se há uma alteração na concentração de determinados neurotransmissores no cérebro, transtornos ligados ao comportamento certamente irão ocorrer. Existem pessoas que têm predisposição genética para o problema, existem famílias em que esses tipos de crise surgem em diferentes indivíduos - da mesma forma como existe predisposição genética a ter pressão alta, diabetes, entre outras doenças.
Na Bíblia vemos exemplos de homens elevadíssimos espiritualmente que passaram por situações em certo sentido semelhantes a quadros depressivos. Tanto o grande profeta Moisés quanto o profeta Elias tiveram momentos em suas vidas que tiveram vontade de morrer (vontade normalmente presente em pessoas em quadro depressivo). E será que eles pecaram por isso? Eu creio que não. Somos humanos, somos fracos, somos limitados. Será que alguém é capaz de suportar tamanho sofrimento sem desejar a morte? Moisés e Elias desejaram a morte, e eram homens, como já disse, elevadíssimos.
Ter depressão não é ser insatisfeito com relação ao Eterno. É ser incapaz de conseguir romper, de enfrentar sofrimento. É ser insatisfeito consigo mesmo, é achar-se incapaz. E eu digo isso não apenas como alguém que conhece pessoas que passaram por quadro depressivo, mas como alguém que já passou por depressão. Lembro-me que quando tive a crise quem mais me ajudou - fora meus familiares - foram pessoas que já tinham enfrentado e superado alguma crise depressiva. Eram pessoas amáveis e pacientes, que realmente me ajudaram nesses momentos críticos - e devo muito a elas. Desmerecer uma pessoa que enfrenta um transtorno psicológico, chamando-a de "pecadora" ou dizendo "você está assim porque você quer" é semelhante a eletrocutar um cachorro tetraplégico. É piorar o sofrimento de alguém que precisa mais do que nunca ser acolhido, ser cuidado. Naqueles terríveis dias que passei, pessoas sem nenhum vínculo forte com religião, até mesmo ateus, me ajudaram mais que muitos 'religiosos' por aí. Trataram-me com dignidade e ajudaram-me a recuperar a dignidade. Não me causaram humilhação seja em particular como em público e respeitaram o meu espaço. Pessoas religiosas também me ajudaram naquela época, e foi bastante preciosa a ajuda que me deram. Eu particularmente penso que é uma grande maldade alguém que diz amar a D'us classificar alguém com qualquer tipo de transtorno como um simples pecador, como se o quadro por qual a pessoa passa seja apenas um "pecado". Basta lembrar-se do Rei David e de seus Salmos que relatam seu sofrimento. Nós estamos passíveis a sofrer, e sofrer não é sinônimo de ingratidão contra D'us. Rebelar-se contra D'us por conta do sofrimento é pecado, pois rebelar-se contra D'us de qualquer modo é pecado. Entretanto, muitas vezes o sofrimento serve não para o distanciamento entre o homem e D'us, e sim para uma aproximação. A vida não é um mar de rosas e creio que poucos são aqueles que realmente conseguem, sem nenhuma hipocrisia, estar satisfeitos com a situação em que se encontram em todo o tempo. Existem dias que são felizes, existem dias que são tristes. E as vezes a ordem é "se entristeça" (vide o Yom Kippur).

Abaixo, alguns vídeos interessantes do médico Dr. Jair Mari, nos quais ele explica brevemente o lado fisiológico desses transtornos:





Que o Eterno nos abençoe e nos livre do mal.
Edgard MacFraggin’ 



segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Dignidade de ser Diferente


Artigo baseado nos livros “A Dignidade da diferença – Como evitar o Choque de Civilizações”, “Para Curar um Mundo Fraturado – a Ética da Responsabilidade”, ambos do Rabino Lord Jonathan Sacks, “A Rosa de Treze Pétalas: Introdução à Cabala” do Rabino Adin Steinsaltz, “O Amor é minha Religião” do Rabino David Aaron e “A História do Povo de Israel” do historiador e embaixador de Israel Sr. Abba Eban.

                Falar sobre diversidade numa era de pluralidade vastamente percebida pela globalização é um assunto realmente difícil e igualmente necessário. Diversos povos, em todas as eras, passaram por aqui sem sequer saber da existência de diversas civilizações. De nem mesmo saber das dificuldades de outros povos, ou das mazelas que estes enfrentaram. Mas graças aos meios de comunicação instantânea, dificilmente alguém desconhece das mazelas da África, da pobreza da Índia, das guerras do Oriente Médio, das plantações de coca da América do Sul, etc. E nesse momento torna-se possível também uma expansão do “ame ao próximo como a si mesmo”. Hoje é possível com apenas um clique do mouse mandar dinheiro para vítimas de catástrofes naturais ou vítimas da fome em um continente distante. Existem novas possibilidades de se fazer o bem. Mas é justamente essa possibilidade por conta da proximidade que pode ser fonte também de confrontos sangrentos entre povos e culturas.
                Dizem que judeus gostam bastante de perguntas. Então começarei com algumas delas: será que existe dignidade em ser cristão? Será que existe dignidade em ser muçulmano? Ou mesmo judeu? Ou ateu? Ou homossexual? O Rab. Jonathan Sacks chama-nos atenção dizendo que “(a) diferença mais incomoda do que nos engradece”. Bom, pegando uma parte importante da história de Yeshua, um momento em que ele ratifica a Torá dizendo sobre os dois maiores mandamentos “O Eterno é Um, ame o Eterno de todo teu coração” e “ame ao próximo como a ti mesmo” (Mordechai “Marcos” 12:29-31) nos mostra qual deve ser a direção do nosso amor. O nosso amor deve olhar para fora. Deve olhar para um outro sempre, seja esse Outro o Eterno, bendito seja, seja o outro o nosso próximo. E se nos consideramos alguém ou algum povo ou devoto de determinada religião como inimigo, fica outro ensinamento de Yeshua: “ame teu inimigo” (Matityahu “Mateus” 5:44). Nós devemos amar as pessoas, independentemente de credo ou etnia. E acredito que isso passa pelas vias de estender a mão e de não colocar um peso sobre os outros como condição para os amar. Uma forma que gosto de sintetizar o “ame o próximo como a si mesmo” é da seguinte forma: Sinta de forma real a dor virtual de teu próximo. A dor do outro não pode ser sentida fisicamente por um terceiro. Mas em um nível virtual, ou mesmo espiritual, pode ser sentida. E isso nos impulsiona a agir. Agir para socorrer, estender a mão, estancar o sangramento do próximo, seja sangue no sentido físico como no emocional.
                Infelizmente, muitas vezes nós reinterpretamos ou mesmo nos esquecemos dos ensinamentos preciosos da Torá. Nós medimos o outro tomando como padrão a nós mesmos. Se alguém age diferente de mim esse alguém está inexoravelmente errado. E isso nos trava e nos atrapalha. Talvez o ponto que isso mais ocorra seja justamente no ponto mais pessoal da fé: na colocação das cercas. As cercas, de pessoa pra pessoa, são diferentes, até mesmo pela sua natureza. Yeshua nos ensina que “não devemos julgar” os outros (Matityahu “Mateus” 7:1). Os mandamentos, como citei no início do texto, se referem a “amar” e não a “julgar”. Só o Eterno, bendito seja, pode julgar alguém. Ninguém mais.
                Mas então, o que é amar? Segundo o Rab. David Aaron, amar o próximo é semelhante ao ato cabalístico da Criação: nós devemos abrir um espaço em nós mesmos (um “tsimtsum” pessoal” por assim dizer) para que outro diferente de nós possa habitar. “No princípio havia apenas eu...” Ele e o Rab. Steinsaltz enfatizam a importância de não se perder a própria identidade e de reconhecer a identidade do outro. Do atrito de duas identidades distintas surge então a energia, as faíscas explosivas do amor. E isso faz todo sentido: se devemos “amar o próximo como a nós mesmos” como vamos respeitar a individualidade do outro se não respeitamos ou mesmo cultivamos nossa própria individualidade? O Rab. David Aaron coloca "Se digo 'sim' apenas porque não consigo dizer 'não', não estou em um relacionamento. Perdi minha liberdade, minha identidade e meu senso de individualidade. Por outro lado, se tenho vontade de dizer 'não' porque tenho necessidade de afirmar minha independência, não aprecio que somos na verdade um só. Por que dizer 'não' quando compartilhamos um ser? Aqui está uma oportunidade de expressar nossa unidade. Amor significa que sou capaz de dizer 'não', porque não sou você e você não é eu. No entanto, escolho dizer 'sim' porque somos um. Não há conflito ou competição, nenhuma luta por liderança absoluta. Embora sejamos indivíduos distintos e muito diferentes, somos um e nos amamos." Isso é bastante profundo.

                Se perdermos nossa individualidade, perdemos a nossa capacidade de cumprir nosso mazal, nosso destino. O Rab. Steinsaltz afirma que "a pessoa mais 'elevada' do mundo não pode cumprir a missão da pessoa mais 'rebaixada'"  Quando chegarmos ao Mundo Vindouro, o Eterno não nos perguntará algo do tipo “Fulano, por que você não foi como Moisés, como David, como Abraão, ou Isaac ou Jacó?” Ele nos perguntará “Fulano, por que você não foi Fulano?” Este é um ensinamento da Ética dos Pais. Muita das vezes somos intransigentes consigo mesmo. Somos fundamentalistas contra nossa individualidade e muito mais contra a individualidade dos outros.
                Por definição, fundamentalismo é “atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios ou regras”. Assim sendo, pode-se pensar em fundamentalismo judaico, cristão, muçulmano, ateu, LGBT, etc. Qualquer tipo de comportamento humano é passível de ser fundamentalista. Vemos um período assim na própria história do povo de Israel. No período entre a Revolta Macabéia e o nascimento de Yeshua, o poder passou dos gregos para os judeus, mas depois os judeus perdem sua soberania para os Romanos. E o que aconteceu nesse intervalo? Abba Eban coloca que esse período foi marcado pelas expansões territoriais engendradas pelo rei e sumo-sacerdote João Hircano, seguido posteriormente por seus filhos, que era sobrinho do próprio Judá Macabeu. Ele cobrava impostos pesados do povo e os investia em poderio militar. Chegou a anexar os territórios da Samaria, Transjordània e Iduméia. Além disso, forçou que esses povos dominados fossem obrigados a praticar o Judaísmo como religião, algo completamente proibido pela Torá, ou seja, de forçar alguma pessoa a cumprir a Torá. Isso teve um alto custo para o próprio povo judeu: Herodes era um idumeu que fora forçado a cumprir a Torá. Portanto, ele nutria um ódio todo especial contra o nosso povo e colocou esse ódio em prática. Pouco antes do nascimento de Yeshua, os saduceus armam contra o próprio povo e ajudam os Romanos a dominar sobre Israel. Talvez esse episódio da história de Israel seja bastante desconhecido, mas houve sim fundamentalismo judaico no passado. Na Idade Média vemos um forte fundamentalismo cristão, e mais recentemente, fundamentalismos islâmicos, político, ateu, LGBT, etc. Todos esses movimentos fundamentalistas são chamados pelo Rab. Sacks de o “Espírito de Platão”, ou seja, "o que é diferente de mim me ameaça, devo destruí-lo". E esse destruir o diferente é necessariamente “não amar o próximo”.
                A estrutura de pensamento que domina todo o ocidente, das religiões às ações políticas e científicas, é uma estrutura de pensamento grego. Oras, será que ao sair de uma estrutura de pensamento grega deve-se apenas colocar um recheio judaico? Ou será que é importante mudar a estrutura de pensamento de grega para judaica? Eu diria que não é apenas importante: é essencial. Vejamos agora a questão da diferença entre Mandamentos e Cercas. Mandamento é aquilo que a Torá diz que tem que ser, e não é discutível. As cercas são colocações pessoais, autolimitações, visando-se que não se saia do caminho proposto pela Torá. Assim, como exemplo, um ex-alcóolatra tem como cerca o nunca comer um bombom de licor, pois comer um desses pode-se tornar motivo de grande pecado para ele. Mas não é por isso que comer bombom de licor se torna um pecado: ele não pode exigir essa dieta de mais ninguém além dele mesmo. Quem tem dificuldade nessa área é ele, não os outros. Para muitos, comer um bombom de licor é um prazer lícito. Caso contrário, acaba-se entrando em doutrinas que fogem da Torá e que afirmam coisas do tipo “jogar futebol é pecado” ou “mulheres que usam maquiagem são pecadoras”. Isso é um completo absurdo. A Torá permite tudo isso. Mas além de se imporem regras absurdas, as pessoas querem que os outros as cumpram, colocando um peso desnecessário, um peso que está fora dos padrões da Torá nos outros. Ninguém fica mais elevado espiritualmente pelo simples fato de não usar bermuda, ou de não escutar determinado tipo de música ou ver determinado filme. Claro que ninguém irá de bermuda pra um Serviço da Sinagoga, nem irá escutar musicas ou assistir filmes que falem de idolatria. Entretanto, a Torá não nos proíbe de ir ao cinema, de escutar musicas de estilos diferentes e de usar bermudas. São exemplos simples, entretanto, bons exemplos. Se alguém se abstém de escutar Rock n' Roll, ótimo. Mas ele não pode exigir isso de mais ninguém, pois a Torá não proíbe escutar Rock. Entretanto, alguém que teme o Eterno não deve escutar músicas de Rock que falem de idolatria ou que blasfemem contra o Eterno – músicas que também existem no meio do Rock. Só como título de exemplo, existem vários judeus, até mesmo rabinos, que fazem parte de bandas de Rock (vide o chassídico Menachem Herman cantando “Sweet Home, Sweet Jerusalem” – clique aqui no link). Em Romanos 14:3, Sha’ul afirma que “quem come verduras não julgue o que come carne, nem vice-versa”. Creio que devemos ir por aí. Um outro exemplo: o que é pior? Fumar um cigarro ou comer carne de porco? Bom, a Torá proíbe categoricamente o comer porco, mas não nos proíbe de fumar. Existem diversos rabinos e judeus que fumam, por exemplo. Mas fumar pode-se tornar um grande pecado? Sim, pode. Fumar no Shabat e nas Santas Convocações é um grande pecado, pois é proibido acender fogo nesses dias.
             O Rabbi Akiva e seus discípulos exemplificam isso no lamentável episódio da praga de mortandade. Rabbi Akiva ensinava que devemos “amar ao próximo como a nós mesmos”. Então seus discípulos entenderam que “amar o próximo como a si mesmo” significava “não deixe o teu próximo errar”. Assim, se corrigiam a todo momento. Mas a coisa foi ficando mais séria, e, visando impedir que o próximo cometesse um erro, começaram a se agredir fisicamente. Isso desagradou o Eterno, e os discípulos começaram então a morrer, morrendo 24.000 deles, terminando essa praga em Lag BaOmer. E é esse tipo de erro que não devemos cometer. Não devemos colocar ou impor nossas próprias cercas nas demais pessoas.
                A Torá nos ensina que não devemos aprender sobre os costumes idólatras dos outros povos. Não deve haver sequer ecumenismo. Entretanto, não podemos desprezar os demais povos. E cada um deles deixou um boa contribuição para a humanidade, que nós judeus utilizamos. Os ternos (tão usados ternos pretos e camisas brancas) foram inventados por franceses católicos da corte do rei Luís XIV no século XVIII. Os chineses inventaram o papel-moeda, bússola, garfos, macarrão, carrinhos-de-mão, pipas, escova de dentes e papel-higiênico. Os árabes, o hábito de beber café, xampu e instrumentos cirúrgicos (muito semelhantes ao que usamos até hoje).  Protestantes criaram o automóvel e a caneta esferográfica. O Facebook e a lâmpada foram criados por ateus. Um hindu inventou o computador pessoal. Os gregos, a medicina e o método científico. Os óculos então devem ser  um dos objetos mais “pagãos” que existem: o vidro foi criado pelos egípcios, o óculos pelos gregos, sendo posteriormente aperfeiçoados por monges católicos e muçulmanos. Quem vos escreve usa óculos e talvez você que está lendo também.
                O Rab. Jonathan Sacks pondera que existe 1 versículo para "amar o próximo" e 36 versículos para amar o estrangeiro. Os sábios da Mishná afirmam que o canto do campo, as espigas caídas devem servir para os pobres, até mesmo os pobres de outros povos, ainda que estes sejam idólatras. Na Ética do Sinai temos o episódio de Pai Abraão e o idólatra de 70 anos de idade. Pai Abraão pede que este homem apenas agradeça o Eterno pela refeição que teve, mas ele se recusa. Abraão então o expulsa com raiva. O Eterno então pergunta a Abraão: “Eu tenho suportado esse idólatra habitar em Mim por 70 anos e você não pode suportá-lo por cinco minutos?” Quando os egípcios se afogaram, os anjos quiseram comemorar. Mas o Eterno os proibiu e lhes disse: “Minhas criaturas se afogaram e vocês estão celebrando?” O Eterno ama a todos os povos, Baruch HaShem.
      Assim, volto a minha pergunta inicial: existe dignidade em ser cristão? Existe dignidade em ser muçulmano? Ou mesmo judeu? Ou ateu? Ou homossexual? É claro que existe, em todos os casos. As pessoas não representam os erros de seus movimentos. Todas elas são a Imagem do Eterno. E será que existe dignidade em ser à Imagem do Eterno? É óbvio que sim. O Eterno nos deu liberdade. Quem somos nós para querer se colocar no lugar dEle, que Ele não permita, e querer podar a liberdade dos outros? Ainda, há espaço para o Bnei Noach no Judaísmo – os rabinos ensinam que não há necessidade de se tornar um judeu! Segundo o site do Chabad, o próprio Maimônides era o médico pessoal do Grande Vizir Alfadhil e do Sultão Saladin, ou seja ele cuidava da vida e da saúde desses lideres muçulmanos. Há dignidade em ser judeu, cristão, muçulmano, ateu, etc, pois há dignidade em ser a Imagem e Semelhança do divino.
O Rab. Sacks ensina que a grande diversidade de produtos que existe no Mercado o engrandece e não o diminui. Nossas diferenças também nos engrandecem: cada povo contribuiu com sua própria cultura para a humanidade. Ai de nós se todas indústrias produzissem os mesmos produtos. Esse exemplo serve para mostrar que nossas diferenças nos engrandecem, ensina o Rab. Sacks. As relações de comércio sempre foram uma alternativa à guerra.
E como usar a individualidade para amar o próximo? Aqui entra a criatividade. Creio que cada um tem seu próprio pedacinho do mundo pra consertar. Hoje a internet facilita muito isso também. Basta querer, procurar, se informar que as possibilidades de “colocar a mão na massa” surgem. Que HaShem nos ajude nesse sentido.

Edgard MacFraggin'

domingo, 3 de novembro de 2013

Um chamado à Responsabilidade

 “Ama o próximo como a ti mesmo” Levítico 19:18.
Seis mil idiomas são falados ao redor do mundo hoje, mas apenas um deles é verdadeiramente universal: a linguagem das lágrimas” Rabino Jonathan Sacks
Vivemos em tempos difíceis. Vivemos em um mundo hedonista em grande parte, que valoriza o próprio indivíduo, a busca de satisfação pessoal mesmo em detrimento do bem-estar de outros. O Judaísmo vai de encontro a todo esse pensamento: é uma religião que praticamente não fala do “eu”. Fala do “Shemá Israel” e do “ama o próximo como a ti mesmo”. É sempre sobre um Outro ou sobre vários outros. É, assim, uma religião que exige uma Ética. Não apenas pregar, mas exercer ação. É a Ética da Responsabilidade.
Mas por que a pobreza é um problema? O rabino Jonathan Sacks afirma que a pobreza não dignifica a alma e nem a refina; ela faz apenas a pessoa se voltar para dentro de si, anestesiando sua sensibilidade, aniquilando o espirito e humilhando a própria alma. Os Sábios se recusam a romantizar a pobreza. Classificam-na como um mal implacável. Dizem que “numa casa a pobreza é pior do que 50 pragas”. Ainda, dizem que “a pobreza é uma forma de morte”. Vale lembrar-se de uma das rezas do Sidur que diz que “Os idólatras não louvam ao Eterno; nem os que descem à sepultura”. Uma pessoa pobre não pode servir a Hashem adequadamente. Os sábios afirmam que “se não há o que comer, não pode haver Torá”. Maimônides afirmava que era impossível direcionar a mente para coisas elevadas quando se tem fome, sede, dor ou falta de abrigo. A pobreza nos impede o correto relacionamento com o Eterno. Impede que desfrutemos dos prazeres lícitos que Ele fez para nós, para todos nós.
A Torá coloca claramente que todos nós que servimos a Hashem temos um dever social de cuidar do próximo. Devemos agir com responsabilidade. Segundo o rabino Jonathan Sacks, responsabilidade vem da junção de duas palavras: resposta e habilidade, i.e., ter habilidade em dar resposta de forma adequada aos problemas que existem no mundo. O Eterno, bendito seja, nos chama a ser Seus Sócios na Criação, afirmam os Sábios. Chama-nos a criar, a dar continuidade na Sua Obra. Nos chama também para retificar aquilo que foi quebrado. Recordo-me de um episódio da história de Moisés: o episódio em que ele quebra Tábuas da Lei. Estas haviam sido dadas pelo Eterno, já prontas. Agora, para ter as segundas Tábuas, Moisés teria que ele mesmo entalhá-las. Fica disso um princípio: “você quebrou, você conserta”. Nós quebramos o mundo inteiro, todos nós representados em Adão. Temos, portanto, o dever de curar a Terra, de consertar as fraturas, de juntar os fragmentos. A Cabalá Luriânica fala a respeito disso, dos fragmentos. Cremos que Yeshua foi o primeiro recipiente que se fragmentou: cada fragmento tem uma centelha de luz divina. E devemos juntar esses fragmentos, consertar essas fraturas, pois isto é o Corpo do Messias, o corpo do Adam Cadmon.
Existe um provérbio judaico que afirma que “as necessidades físicas do teu próximo são tuas necessidades espirituais”. Yeshua ratificou em Marcos 12:31 o que já havia aparecido em Levítico 19:18. Entretanto, compreender a dor de outra pessoa é praticamente impossível. Eu não posso sentir a fome de uma pessoa estando alimentado; ainda que tivesse fome, a minha poderia ser em nível menor que a de outra pessoa. O mesmo vale para ter sede, para estar nu, estar doente, etc. São coisas extremamente subjetivas, são coisas virtuais. Então, que fazer? Pensemos assim: sinta de forma real a dor virtual do teu próximo. Pode-se destrinchar “dor” em muitas coisas, entre elas fome, sede, doença, pobreza, nudez, tristeza, solidão, etc. Yeshua apresenta exatamente esses pontos em Mateus 25:35-40: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondeu-lhes: em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Isso nos mostra a profundidade da prática da fé judaica por Yeshua. Servir ao Eterno não implica apenas as rezas, ritos, etc. Tão certo também não é apenas fazer o bem aos outros. São as duas coisas, necessariamente. Como ratificado por Yeshua, “Shemá Israel e ama o próximo como a ti mesmo”. Isso é servir ao Eterno, bendito seja. As duas primeiras perguntas de Bereshit mostram isso claramente. “Homem, onde está você?” e “onde está teu irmão?” Isso mostra que nós além do dever de nos relacionar com D’us devemos cuidar de nossos irmãos. Caim perguntou “acaso sou eu guardador do meu irmão?” e a resposta para isso era “sim”. Somos responsáveis pelos nossos irmãos. O conceito de Simchá não pode ser entendido como algo solitário. É uma alegria que surge do compartilhar, do coletivo, de algo que existe justamente porque nós compartilhamos.  
Estava refletindo sobre a questão de Yom Kippur. Muitos de nós já participamos desse dia, fazendo um jejum completo de alimentos e líquidos por 25 horas. Espiritualmente falando, nos elevamos muito, é um dia de configuração espiritual única. Agora, fisicamente falando, é muito difícil. Ficar em pé, rezar por um dia inteiro, sem água, sem comida, sem nenhum prazer. E isso é apenas um dia. Os sábios falam que se alguém faz muitos jejuns, chegando a passar mal por isso, essa pessoa é duas vezes pecadoras. O Eterno nos deu prazeres lícitos, e estes devemos aproveitar. Nossos sábios ensinam que iremos responder no Mundo Vindouro por cada prazer lícito que deixamos de aproveitar. Agora, pensemos um pouco em tantas pessoas que passam pela experiência física do Yom Kippur praticamente todos os dias do ano! E elas não tem elevação espiritual alguma. Apenas sofrem. “Ama o próximo como a ti mesmo”: lembre-se do teu próprio sofrimento físico no último Yom Kippur quando alguém vier lhe pedir algum dinheiro para comprar comida.
O rab. Sacks afirma que “a vida é um chamado de D’us à responsabilidade”. Ainda, coloca que “nós aprendemos sobre D’us emulando-O mais do que O contemplando”. Vivemos em tempos em que conceitos espirituais profundos são substituídos por coisas frias e sem vida. Vivemos um tempo em que pessoas ditas religiosas delegam sua ação para o Governo, transformado a Ética que deveriam ter em Política, a obrigação moral em legislação fria e o envolvimento pessoal em órgãos públicos sem rosto (rab. Sacks). Lembro-me de uma vez que escutei um líder de determinado seguimento religioso afirmando que “nós [instituição religiosa] não temos o dever de fazer ação social; quem deve fazer isso é o governo”. Parecia que ele dava razão ao que Karl Marx disse sobre a religião: que ela é ópio do povo. Marx acreditava que a religião servia apenas para manter o Status Quo existente, dignificar a pobreza, justificar doenças e conter as massas. Ele acreditava que para o mundo melhorar a religião deveria simplesmente desaparecer. Não podia estar mais enganado. Ele, um neto de rabino, não compreendeu o que é o Judaísmo. Judaísmo é uma religião que surge não da aceitação do Status Quo, mas de uma revolta contra ele. Não aceita o conformismo. Abraão nosso pai vivia em meio à idolatria e ele se rebela contra isso trazendo a prática do monoteísmo à Terra de forma ininterrupta até nossos dias. Ele se levantou justamente contra os impérios politeístas egípcio e mesopotâmico – sendo que estes sim usavam a religião para glorificar os reis/faraós, oprimir o povo e conter as massas. O Judaísmo começa dando liberdade a um povo escravo, e não o escravizando.

O Pirkê Avot nos conta que certa vez um homem muito rico foi dar uma festa. Ele tinha 20 conjuntos belíssimos de talheres de prata e convidou outras 19 pessoas para jantar com ele. Estava tudo pronto: 20 lugares dispostos na mesa e os conjuntos de talheres em seus lugares. Os convidados foram chegando um a um e tomando seus lugares. O último convidado chegou, sentou-se a percebeu algo estranho: ele não tinha talheres. Foi falar então com o anfitrião da festa sobre isso. O anfitrião lhe disse que tinha talheres para todos e que se não havia talheres para ele apenas uma coisa poderia ter acontecido: algum dos convidados estava com dois conjuntos de talheres. Isso ilustra bem o que aconteceu com o nosso mundo. O Eterno criou recursos naturais para todos, o sol brilha para todos, o ar é de todos, os recursos aquáticos e terrestres também são de todos. Entretanto, nem todos têm o que o que comer ou que beber, por exemplo. O que se deduz disso: se alguns não têm, significa que outros têm mais do que deveriam, estão com as partes que são de outras pessoas. Existem muitas pessoas sofrendo de obesidade mórbida nos Estados Unidos, enquanto outras morrem de inanição na África. Onde está a justiça nisso? É nosso dever fazer essa justiça, dar àqueles que não têm o que o Eterno proveu a cada ser humano.

Certa vez perguntaram ao rabino Chayim de Brisk (1853 – 1918) quais eram os deveres de um rabino. Ele respondeu que era o de “aliviar a dor daqueles que estão sozinhos e abandonados, proteger a dignidade do pobre e salvar o oprimido das mãos do opressor”. E será que esse é um dever exclusivo de um rabino? Creio que não. O rabino fica de costas para a congregação durante o serviço ao Eterno, pois ele também tem que prestar o seu serviço ao Eterno. De modo semelhante, temos uma missão semelhante a do rabino quanto ao próximo, Yeshua mesmo nos ensinou isso. O rabino Chayim de Brisk era um homem que vivia endividado por ajudar os outros. Apesar disso, no inverno ele deixava as portas de sua madeireira aberta para que os pobres pudessem lá entrar e pegar lenha sem ter que passar pela humilhação de ter que pedir. Quando madeireiros não-judeus o questionavam sobre isso, por conta dos supostos prejuízos que isso causavam a eles, ele respondia que “estava economizando dinheiro para a saúde pública”. Caso não fizesse assim, iria acabar pegando uma pneumonia, visto que não teria coragem de acender sua própria lareira sabendo que outras pessoas não tinham como se manter aquecidas.  
Certa vez, o Rebe de Kamiker decidiu passar um dia inteiro recitando Salmos. O maguid de Tsidnov mandou que um mensageiro lhe chamasse. Ele disse ao mensageiro que iria mais tarde, pois ainda queria recitar mais Salmos. O mensageiro foi ao maguid e voltou ao Rebe dizendo que o maguid precisava dele com urgência. Quando o Rebe encontrou o maguid este lhe perguntou o motivo de tamanha demora, pois o maguid desejava que o Rebe saísse para coletar dinheiro para um homem pobre. Quando soube que o Rebe demorou por estar recitando Salmos lhe disse: “Salmos podem ser entoados por anjos, mas apenas seres humanos podem ajudar os pobres. A caridade é mais importante que do que recitar Salmos, pois os anjos não podem fazer caridade”.
Todas as sextas-feiras antes do sol nascer, o Rebe de Nemirov desaparecia. Não era possível encontrá-lo nas sinagogas ou em casas de oração. Sua casa ficava com as portas abertas, mas ele não era encontrado ali. Um homem de outra cidade ao saber disso perguntou aos discípulos do Rebe para onde ele ia. Eles responderam que certamente ele ia aos céus pleitear pela paz, sustento e saúde para a cidade. O forasteiro ficou incrédulo quanto a isso. Decidiu então desvendar o mistério: se escondeu na quinta-feira a noite e seguiu o Rebe sem que ele percebesse. O Rebe saiu de casa vestindo roupas comuns e carregava um machado; seguiu até a floresta, derrubou uma árvore e a dividiu em pedaços de lenha. Pegou a lenha e voltou para uma um parte afastada da cidade, numa ruazinha distante do centro. Bateu na porta de um casebre e uma senhora idosa, pobre e adoentada abriu. Ela lhe perguntou quem ele era e ele disse que estava vendendo lenha muito barata, quase de graça. A senhora disse que não tinha dinheiro. Ele disse que daria crédito a ela; ela respondeu que não teria como pagar posteriormente. Ele disse: “a senhora não confia em D’us? Ele fará que eu seja pago”. A senhora disse que não teria condições também de acender o fogo e ele o acendeu. Enquanto o acendia, ele recitava em voz quase inaudível as Bênçãos Matinais. Depois disso, ele voltou para a casa dele. O homem que o seguia se tornou então um discípulo dele. E quando escutava alguém dizer que nas sextas o Rebe ia aos céus, ele dizia “e talvez até além”.
Quando do episodio de Mordechai e Ester, Mordechai lhe disse que se ela se calasse perante aquela situação, o Eterno levantaria outro homem para trazer livramento aos judeus, mas que talvez o motivo dela ter chegado ao reinado tenha sido exatamente esse (Ester 4:14). Se não fizermos o que devemos fazer, talvez outros o façam, mas nunca teremos cumprido a que o Eterno nos deu a fazer aqui.
Mas então, como fazer tsedaká? Maimônides ensinava que existem oito formas diferentes de fazer, com diferentes graus de elevação. Falarei da mais elevada para a menos elevada:
1)      Tirando um necessitado da situação de pobreza: dando-lhe um presente ou empréstimo, acolhendo-o como sócio, ajudando-o a conseguir um emprego. Retirando dele a situação de humilhação por necessitar de outros.
2)      Doar secretamente: quem doa não sabe para quem vai, quem recebe não sabe de onde veio.
3)      Doar anonimamente: o doador sabe para quem vai, mas quem recebe não sabe de quem veio;
4)      Beneficiado sabe de onde veio: o doador não sabe para quem vai. Muitos sábios amarravam moedas nos seus xales e as jogavam para trás, de forma que os pobres podiam pegá-las sem ter que passar pela humilhação de pedir.
5)      Ajudar um necessitado antes que ele peça;
6)      Ajudar um necessitado depois que ele pede;
7)      Dar menos do que o pobre necessita, mas de forma amável;
8)      O mais baixo grau é o daquele que doa de má vontade.
O povo judeu é um povo interessante. O midrash pergunta “quem é que pode entender esse povo? Quando lhe pedem uma contribuição para fazer um bezerro de ouro, eles dão. Quando lhes pedem uma contribuição para a construção de um santuário, eles dão”. Tsedakah se aloja muito perto da essência do que é ser um judeu. Os rabinos afirmam que se “uma pessoa é cruel e sem compaixão, há razão suficiente para desconfiar de sua ancestralidade”.
Vale ressaltar que ajudar um pobre não significa adotar a pobreza para si mesmo. Nenhum carente foi ajudado por saber que um santo tomou o seu partido. Foi ajudado porque teve a chance de não ser pobre. Existe também um princípio que mesmo uma pessoa que recebe tsedakah deve dar tsedakah. Observa-se isso claramente em uma das partes do filme “Ushpizin”, quando Moshe Belanga, depois de receber uma tsedakah que muito precisava, separa uma parte e dá de tsedakah para o Ben Baruch.
Mas quem é esse nosso próximo? O rabino Meir Melamed comenta que Jacó chama a uns pastores desconhecidos, sem distinção de nacionalidade de “irmãos”. Os sábios no período da Mishná ensinaram a prática do “Darkê Shalom” (Caminhos de Paz). Eles diziam que “em benefício da paz, deve ser permitido aos gentios pobres apanhar as espigas deixadas no campo depois da ceifa, recolher os feixes esquecidos e colher dos cantos do campo; (...) devemos sustentar os gentios pobres como sustentamos os do nosso povo, devemos visitar os gentios doentes como visitamos os nossos e devemos sepultar os deles como sepultamos os nossos”. Vale lembrar que o período da Mishná os judeus estavam na Diáspora. Eram minorias que tinham conhecido a assimilação ou a revolta armada, e nenhum desses caminhos havia dado bons resultados. Assim, propõem um novo caminho, os Caminhos de Paz. Esse caminho não significa ter paz, mas criar ações que possam levar a uma boa convivência. Dificilmente teremos paz no meio de idólatras. Mas devemos fazer o bem, compreendendo que cada ser humano possui uma fagulha divina dentro de si.
O rabi Eleazar costumava dar uma moeda a um pobre antes de recitar suas preces; ensinava que está escrito “através da caridade, eu verei Tua face” (Talmud da Babilônia, Baba Batra 10a). Lembro-me de grupos que faziam evangelismo nas madrugadas de determina cidade. Durante as madrugadas, aquilo que é considerado como escória da sociedade está nas ruas. Prostitutas, travestis, dependentes químicos, mendigos, etc. Cansei de ver cenas de pessoas que vinham pedir dinheiro para voltar para casa ou para comprar comida. A resposta padrão era “eu não tenho dinheiro, mas veja, pegue um folhetinho do JC”. Aparentemente o sofrimento alheio não tinha nenhum problema (principalmente porque quem podia ajudar não estava sofrendo). Parecia ainda que este mundo físico aqui não importa para nada. A pessoa que evangelizava a outra estava fazendo uma “grande bondade”: estava livrando a alma do outro do inferno (como se humanos pudessem determinar quem está salvo e quem está condenado). Ou seja, se a pessoa recusava a “salvação” contida naquele folheto do JC era culpa dela ainda sofrer. Ela estava rejeitando um futuro “bom”. E o pior, depois que acabava o evangelismo e de falar que não tinham dinheiro, o grupo seguia para uma lanchonete pra lanchar. De graça é que o lanche não era. E eu de tudo isso porque durante algum tempo participei desse grupo. Foi bom, mas no sentido de perceber como a mensagem pura e bela da Torá está deturpada. Foi bom no sentido de me fazer olhar a Torá como algo precioso e profundo. Aprendi a lição do que não fazer.
Se alguém lhe pede comida, dê. Se alguém lhe pede água, dê. Quem somos nós para julgar o interior do outro? Que o Eterno nos abençoe e nos ensine a amar e cuidar desse próximo, não como queremos, mas como Ele quer que façamos.
Edgard MacFraggin'

Referências
“Para curar um mundo fraturado”, Rabino Jonathan Sacks, Editora Sêfer.
“A Ética do Sinai”, Irvin Bunim, Editora Sêfer.
“Torá: a Lei de Moisés – com tradução e comentários pelo Rabino Meir Matzliah Melamed”, 3ª edição, Congregação Religiosa Israelita Beth-el.