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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Do que ele (também?) nos salvou

Para escrever esse artigo eu me baseei em muitas conversas que tive com uma grande amiga a sra Ana Mariza Fontoura Vidal, que é uma "grande mãe" pra mim. No período em que morei no interior de São Paulo ela me orientou bastante. Assim, muitas das ideias desse texto foram extraídas de reflexões dela ou de reflexões que ela me conduziu a chegar em nossos papos.
                Tenho observado de alguns meses para cá o quanto a figura de Yeshua/Jesus gera interesse e controvérsias em diferentes meios, mas principalmente entre Cristianismo e Judaísmo. Muitos judeus dizem, categoricamente, que "ele [Yeshua/Jesus] não pode ter morrido pelos pecados de ninguém, pois a Torá diz que cada um morrerá pelo seu próprio pecado" (vide Deuteronômio 24:16). Esse é um argumento muito forte e eu acho que tem bastante fundamento, pois cada um de nós vai morrer um dia e cada um pagará por suas transgreções. É isso o que eu acredito, mas pode ser que não seja assim. Muitas dessas coisas, só o Eterno sabe como será.
                Entretanto, não devemos jamais menosprezar tudo o que aconteceu por conta de Yeshua/Jesus. Quero falar justamente sobre isso: será que falar que Yeshua/Jesus nos salvou só pode ser interpretado em um único sentido?
                Eu acredito que não. Existe uma possibilidade mais ampla relacionado a essa questão. Vejamos os povos que cercavam os judeus na época de Yeshua/Jesus. Qual daqueles povos era sequer B'nei Noach1? Nenhum deles. E muito longe disso, faziam coisas abominavéis. E mesmo em outros continentes a coisa não era muito diferente. Peguemos um exemplo da Europa, os Vikings. Eu gosto bastante dos Vikings, admiro sua cultura e povo, entretanto, imagine viver naquela época: eles eram bárbaros, brutais, rituais assassinos eram comuns, entre outras coisas. Algo completamente longe do ideal Noético. Só com o avançar do Cristianismo que as coisas foram mudando. Por conta do Cristianismo, os povos foram cada vez mais, em certo sentido, se aproximando da prática das Leis de Noé.
                Talvez nem cristãos e nem muçulmanos conheçam as Sete Leis, mas a prática deles se aproxima e muito dessas Leis. Muito mesmo, talvez não de forma ideal, mas certamente muito melhor que a prática pagã-bárbara de outros povos. E quem foi peça chave nisso tudo? Justamente Yeshua/Jesus. Por conta de sua mensagem, embora muitas vezes mal interpretada, muitos povos e a humanidade de modo geral pôde se aproximar da prática das Leis Noéticas. E se um não-judeu que pratica essas leis serve ao Eterno, o Deus de Israel, então acredito que foi esse o tipo de "salvação" que Yeshua trouxe: a possibilidade de conhecer o Deus dos judeus, o monoteísmo bíblico. Por conta de Yeshua/Jesus, os povos tiveram acesso, via Cristianismo, à cultura e aos textos Judaicos. E isso é e foi algo muito bom. O que ainda nos falta é união e respeito às diferenças.
                Estamos no momento agora do diálogo inter-religioso. Esse é o tema do momento. Diversos rabinos e padres, desde o final da Segunda Guerra Mundial estão trabalhando em pról disso. Judeus/Judaísmo ficar criticando Cristãos/Cristianismo e vice-versa é algo completamente abominável e retrógrado. É lamentável ver isso ainda atualmente. Uma instituição Judaica ou Cristã que não fala sobre isso está parada no tempo. Uma instituição que fica criticando outra fé está remando contra a maré. Esse momento de brigar deveria nunca ter acontecido; mas como aconteceu, deveria ter ficado lá século 15 ou 16. O momento agora é de nos unirmos. Se Yeshua/Jesus é o Messias ou não, um dia todos vamos descobrir. Por enquanto, cada um tem a sua fé, que deve ser respeitada. E isso está até no documento "Os 12 pontos de Berlim"2. Vale a pena a leitura desse importantíssimo documento.
                Pense, reflita sobre isso. Yeshua/Jesus fez algo importantíssmo. E ele possibilitou sim a "salvação da humanidade". Pelo menos em certo sentido.
Edgard MacFraggin'

[1] B'nei Noach são os "Filhos de Noé"; são aqueles que seguem as Sete Leis Noéticas, leis pelas quais um não-judeu pode servir o Deus de Israel. Clique nesse link para ver as Sete Leis 
[2] A leitura desse documento pode ser encontrada clicando nesse link 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O que não fazer durante o Natal


Essa época do ano, no Brasil e em muitos outros países, há as celebrações natalinas. Cerca de dois anos atrás, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, gravou uma mensagem desejando “feliz natal” para os israelenses cristãos, desejando-lhes votos de felicidade em suas festas. Lembro que fiquei sem entender o motivo dele ter feito isso. Pensava comigo “como pode um judeu fazer algo do tipo?”... na mesma época, eu cometi algo que hoje considero errado e acho que hoje entendo os motivos de Benjamin Netanyahu, pelo menos em parte. Naquela época, via redes sociais, eu critiquei duramente o Natal, chegando mesmo a fazer zombarias à respeito da festa. Acabei ofendendo muita gente com minha falta de respeito, e por isso peço perdão.

Geralmente, quando alguém se levanta para criticar o Natal e outras práticas, o fazem no sentido de “lutar contra idolatria”. Entretanto, se essa luta se torna mais pessoal, no sentido de alguém se levantar para criticar outra pessoa, chamando-a de “idólatra”, a coisa começa a ficar bastante mais séria para o crítico. Vejamos o que dizem os rabinos sobre isso:

“Quando você acusa alguém e pronuncia um julgamento sobre esta pessoa, dizendo que ela merece isto ou aquilo, está pronunciando julgamento sobre si mesmo. Apesar do erro cometido pelo outro parecer estranho à sua maneira de ser e de se comportar, você já terá cometido de forma semelhante este mesmo erro. Se você acusa alguém de, por exemplo, idolatria, você será, com certeza, culpado por orgulho – que é, em si, uma forma de idolatria. E seu erro pode ser maior que aquele que você aponta, pois o julgamento sobre você será ainda mais severo e crítico. Porém, se você justifica aquele que está errado, desculpando-o pelo fato de estar ainda aprisionado à sua encarnação e não poder controlar seus desejos, então você estará justificando a si mesmo.” (trecho do livro “A Cabala da Inveja”, do Rabino Nilton Bonder, pág. 113).

Bom, em minha opinião, tanto quanto cristãos devem celebrar o Natal, os judeus não o devem celebrar. São religiões diferentes, com costumes diferentes e deve ser “cada um na sua”. Mas não quero entrar na parte ritualística ou espiritual do Natal e nem mesmo de outras festas. Quero falar de questões mais “físicas” e não “rituais”. Porque embora sejamos de religiões muito diferentes, temos algo em comum. E esse algo em comum é o “ser à Imagem e Semelhança do Divino”. Vejamos isso...

Por conta de uma determinada festa, crianças órfãs são visitadas todos os anos, e recebem presentes, alimento e carinho. Por conta dessa festa, idosos são visitados em asilos e recebem mais carinho e atenção do que recebem no ano inteiro. Doentes recebem alegria em leitos de hospitais e os presos recebem carinho também. Pessoas pobres recebem dignidade, seja em forma de alimento, seja em forma de roupas, ou brinquedos. E essa festa é o Natal. E o que é lícito fazer no Natal? É lícito e louvável fazer no Natal o que é lícito e louvável fazer no ano inteiro. É licito “amar o próximo como a ti mesmo”.

Eu acho que quem quiser criticar a prática religiosa dos outros, tem todo direito de fazê-lo. Mas criticar sem ter nenhuma atitude, de que adianta? Se for para criticar, deve-se fazê-lo muito mais com atitudes do que com palavras. Se você acha que quem celebra o Natal está complemente errado em suas atitudes, mostre a ele como fazer então. Se eles visitam crianças, idosos, doentes e presos uma vez por ano, quantas vezes alguém que os critica deve visitar? É muito fácil ficar sentado apenas criticando sem nunca se levantar da cadeira e ir estender a mão a quem necessita. Se alguém acha que sua prática religiosa é tão mais elevada que a dos outros, que demonstre isso com seus frutos, pois “pelos frutos se conhece a árvore”. Então, faça caridade não apenas uma vez por ano, como muitos fazem apenas no Natal. Faça caridade não só uma vez por ano, faça caridade pelo menos uma vez por mês. Se nós não somos capazes de “amar ao próximo como a nós mesmos” a quem vemos todos os dias, como o seremos de “amar a D’us”, a quem não vemos?

Quero ler agora algo muito interessante que Larry Norman, de bendita memória, escreveu. Ele dizia assim, numa tradução livre...

“Você deve alimentar os pobres, eles estão morrendo todos os dias; quando sua mãe perguntar se você alimentou os pobres, qual será sua resposta? Você deve alimentar os pobres, você deve obedecer; quando seu pai perguntar se você alimentou os pobres, qual será sua resposta?
Existe um pequeno garoto deitado no chão, tao fraco que não consegue levantar a cabeça, tão doente que não consegue emitir um som. Há uma pequena bebezinha com os olhos bem fechados, seu corpo queima em febre, não há comida para ela essa noite...
Você tem que alimentar os pobres, você deve obedecer, quando os anjos perguntarem se você alimentou os pobres, qual será sua resposta? Você tem que alimentar os pobres, eles estão morrendo todos os dias, quando o Messias te perguntar se você alimentou os pobres, qual será sua resposta?
Eles estão cortando as florestas tropicais para alimentar vacas, empresas de Fast Food não tem tempo a perder. Áreas alagadas e pântanos estão sendo drenados, os animais e pássaros não têm mais lugar para ficar.
Conglomerados insidiosos negam que estão envolvidos, com tanta falsidade fica muito difícil de resolver as coisas, eles imprimem quilômetros de papel que não dizem nada, e assim outro milhão de arvores são cortadas. Nas escolas, as crianças vão sem uma refeição; eles estudam esse nosso país maravilhoso, mas deve parecer-lhes completamente irreal. No Haiti, na África e na sua pequena cidade também, existem crianças passando fome em todos os lugares e eles estão olhando para você...
Você tem que alimentar os pobres, você tem que alimentar os pobres...”.

Alimentar os que têm fome, dar de beber aos que tem sede, vestir aos que estão nus, visitar os doentes, cuidar dos idosos, brincar com uma criança, tudo isso tem muito mais valor que longas horas de estudo religioso e orações. Como ensinam os rabinos, nós “aprendemos mais sobre o Eterno imitando-O do que contemplando-O”. Se você precisa de um motivo, uma celebração para fazer o bem para o outro, ao invés de fazer bondade nessa época em nome do Natal faça-o em nome de Chanukkah; compartilhe suas refeições de Purim com os mendigos; visite os doentes em Pessach; vá a um asilo em Rosh HaShana. E que um dia o Eterno nos permita fazer o Bem a todos a quem pudermos todos os dias, independentemente de datas. Chag Chanukkah Sameach e que você não perca a oportunidade de fazer uma bondade a alguém ainda nessa festa de Chanukkah de 5775! 

Edgard MacFraggin'

domingo, 30 de novembro de 2014

A melhor forma de fazer Tsedaká


No livro “A Ética do Sinai”, de Irving Bunim, nos é passado o ensinamento de nossos sábios de que “sobre três pilares se sustentam o mundo: a Torá, a Avodá e a Tsedaká”. Traduzindo para um bom português, os pilares são “Torá, o Serviço ao Eterno (Avodá) e a Caridade (Tsedaká).
Eu venho de uma família completamente assimilada. Assim, não tive a oportunidade de frequentar uma escola judaica desde pequeno, de aprender Hebraico profundamente, etc. Muito das coisas que eu fiz foram bem tardiamente. Assim, tenho para mim que, a respeito dos “Três Pilares” citados anteriormente, dificilmente vou poder fazer excelentemente no curto-médio prazo “Torá e Avodá”, pois para isso se demanda um profundo conhecimento de Hebraico, de Mishná, Talmude, etc. Entretanto, para o pilar de Tsedaká, não há necessidade de conhecimentos profundos sobre o Judaísmo, esse é o pilar mais acessível a todos. De certa forma, o mais fácil de se fazer, inclusive. Talvez a grande dificuldade para nossos egos seja de que fazer Tsedaká não nos faz “aparecer muito” ou ficar em destaque diante da sociedade, pelo menos não deveria ser assim. Yeshua ensinava que “o que você fizer de caridade com tua mão direita, não permita que nem mesmo tua mão esquerda saiba”. Pois, caso alguém faça caridade e diga o que fez aos outros, já receberá sua recompensa, receberá em algum grau louvor humano e é o preço que se paga por ser exibido. “Aquilo que em secreto você fizer, o Pai que em secreto te vê, em secreto te recompensará”, ensina Yeshua.
Yeshua, em determinado ponto diz que haverá uma espécie de ajuntamento de todos nós humanos. E nesse dia, a humanidade será dividida não entre “judeus e não-judeus”, nem mesmo entre “cristãos e não-cristãos”, nem entre “muçulmanos e não-muçulmanos”, etc. A humanidade será divida entre os que fizeram o bem ao próximo e os que não fizeram. Yeshua dizia “vinde Benditos de meu Pai, pois eu tive fome e vocês me deram de comer; tive sede e vocês me deram de beber, estava nu e vocês me vestiram, estava doente e vocês cuidaram de mim, estava preso e vocês foram me visitar.” E essas pessoas perguntariam: “mas Yeshua, quando foi que te vimos nessas situações e te fizemos o bem? Isso nunca aconteceu!” E Yeshua responde: “quando vocês fizeram a qualquer pequenino vocês fizeram a mim!”. De modo semelhante, ele dirá ao outro grupo “Afastem-se de mim, malditos! Pois tive fome e não me deram de comer; quando tive sede, não deram o que beber; estava nu, doente e preso e vocês nem me vestiram, nem cuidaram de mim e nem foram me visitar.” E esse grupo responderá: “Mas quando foi que isso aconteceu? Nós nunca te vimos em nenhuma dessas situações?” e Yeshua responderá: “Quando vocês deixaram de fazer a qualquer um dos pequeninos, vocês deixaram de fazer a mim.” E eles dirão “Mas Yeshua, em teu nome expulsamos espíritos maus, curamos doentes e fizemos maravilhas!” E Yeshua responde: “eu não vos conheço”. O Rabino Abraham Joshua Heschel, um importantíssimo representante do movimento Chassídico moderno, se não me engano ele era da segunda geração de líderes depois de Baal Shem Tov, disse algo muito importante em um de seus livros. Ele dizia que “Quando a fé é substituída pela profissão de fé, a adoração pela disciplina, o amor pelo hábito; quando a crise é ignorada pelo esplendor do passado, a fé se torna mais propriamente uma herança tradicional do que uma fonte de vida; quando a religião fala mais pela autoridade do que pela voz da compaixão, sua mensagem torna-se sem significado. A religião é uma resposta aos problemas fundamentais do homem”. Não foi justamente isso que, em outras palavras, Yeshua disse?
Maimônides ensinava oito formas diferentes de se fazer Tsedaká. Existe uma forma mais elevada e outra muito mais baixa de praticar caridade. Vou explicar-lhes o que ele ensinava da forma mais elevada para a mais rebaixada. Basicamente, quanto mais se elimina a humilhação de quem precisa receber caridade, mais elevada se torna a Tsedaká. Quanto mais humilhação quem recebe Tsedaká precisa passar para recebê-la, mais rebaixada se torna a Tsedaká. Vamos lá....
A forma mais elevada é aquela que retira completamente a pessoa pobre da situação de humilhação e muitas vezes é forma mais fácil de Tsedaká. Exemplos dessa forma são dar um presente ou empréstimo para uma pessoa, ou acolhê-lo como sócio ou ajudando-o a conseguir um emprego. Muitas vezes, a Tsedaká mais espiritual não nos custa 1 centavo do bolso!
Um pouco mais rebaixada que a forma anterior, está em fazer uma doação secreta, aquele que doa não sabe para quem vai, aquele que recebe não sabe de onde veio a doação. Assim, nenhum vinculo de favores pode ocorrer. Do tipo, “eu te ajudei financeiramente, agora você me deve uma”. E é certamente menos humilhante para quem recebe.
Abaixo dessa está o doar anonimamente: o doador sabe para quem vai, mas quem recebe não sabe de onde veio a doação.
Logo abaixo está uma situação em que o beneficiado sabe de onde veio a caridade, mas quem doou não sabe para quem foi. Alguns rabinos amarravam moedas em seus xales e as jogavam para trás. Assim, quem precisasse de caridade poderia pegar as moedas sem ter que passar pela humilhação de ter que pedir.
Abaixo da anterior, está a de ajudar um necessitado antes que ele peça;
Em seguida, temos a de ajudar um necessitado depois que ele teve que passar pela humilhação de te pedir.
Em seguida, temos a de “doar menos do que o pobre necessita, mas doar de forma amável”.
E em último lugar, a forma mais baixa de se fazer caridade é doar de má vontade, que o Eterno nos livre disso.

Eu não conheço nenhum mendigo que fale hebraico, eu posso demonstrar amor para ele usando minha o própria língua, o português. Que o Eterno nos ajude a fazer o bem aos outros com aquilo que já temos a capacidade de usar, de falar, de agir. Que a cada um de nós seja concedida criatividade para curar as feridas abertas desse mundo que Ele criou e tanto ama.
Edgard MacFraggin'

Os Outros Povos Choram




Há um tempo atrás, escutei numa palestra do Rabino Lord Jonathan Sacks sobre uma moça judia que participava de um projeto de ajuda social na África. Infelizmente, não me recordo o nome dessa moça. O Rabino Sacks contava o motivo pelo qual ela havia ido à África ajudar as pessoas ali. Ela disse algo mais ou menos assim em referência à Segunda Guerra Mundial: “Nosso povo chorou durante anos e ninguém os escutou. Outros povos estão chorando agora e será que nós não os vamos escutar?”
Que exemplo profundo de amor. O Rabino Moré Ventura ensina algo mais ou menos assim: “Nós judeus somos B’nei Avraham, Filhos de Abraão, mas todos nós humanos somos B’nei Elokim, Filhos do Eterno, bendito seja ele”. Somos todos filhos de um mesmo Pai. O Rabino Meir Melamed chama-nos atenção em um comentário de Bereshit (Genesis) 29:15:
“É interessante notar com que espontaneadade a gente da antiguidade tratava uns aos outros de irmãos. Labão considerou imediatamente Jacó como seu irmão. Jacó chamou de irmãos a uns pobres pastores idólatras. ‘Meus irmãos, de onde sóis vós?’ (Bereshit 29:4). Essas duas palavras não podem passar despercebidas, e a humanidade deveria aprender, finalmente que, sendo uma só família, o trato com os nossos semelhantes tem que ser de irmão para irmão.”
Esse comentário é encontrado na pág. 59 da Torá traduzida e comentada pelo Rabino Meir Matzliah Melamed.

Todo ato terrorista é absolutamente condenável. Mas será que podemos esperar receber amor de palestinos e muçulmanos enquanto existem judeus que odeiam outros povos ou pessoas de outras religiões? Só podemos esperar amor deles quando não mais partir ódio de nosso lado. Não podemos usar dois pesos e duas medidas. Só receberemos uma medida de amor quando uma medida de amor partir de nosso lado. Será que a morte ainda que seja de um terrorista não deixa nenhuma criança órfã ou mulher viúva? Será que essa criança ou essa viúva não irão chorar e se entristecer pela morte de seu pai ou esposo? E eles pelas atitudes de desse terrorista? Será que vamos deixar de no mínimo rezar para que o Eterno console esses corações? Mas será que não podemos fazer mais?

Nós todos temos como exemplo nossos patriarcas. Será que nós teríamos a audácia de odiar o que Abraão nosso pai amava? Será que podemos odiar e desejar sofrimento a quem Isaac nosso pai amava? Abraão abençoou Ismael e Isaac abençoou Esaú. Eles dois não se tornaram parte do povo judeu, mas isso não os privou de ser abençoados. Se fazemos parte do povo judeu é para que através de nós “todas as nações da terra sejam benditas”, isso está na Torá. Devemos viver um Judaísmo relevante para a sociedade atual. Ser uma vela acesa debaixo do sol de meio dia é muito fácil. Difícil é ser como uma vela acesa em meio as trevas. Mas foi justamente para isso que as velas foram criadas.
Edgard MacFraggin'

sábado, 11 de outubro de 2014

Lech Lechá: retornando ao começo

Crianças lhe foram trazidas para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas, mas os talmidim repreendiam as pessoas que as traziam. Entrentanto, Yeshua disse: ‘Deixem as crianças chegar até mim e não as impeçam, porque o Reino do Céu pertence a quem é como elas’. Depois de lhes impor as mães, seguiu seu caminho”.
Mattityahu 19:13-15 (BJC)

Eu acho que quase sempre as crianças são muito sinceras, principalmente quando se encontram em um determinado ambiente em que se sentem à vontade. Sempre falam coisas que talvez um adulto não fosse falar, são extremamente sinceras, não apenas com os outros, mas penso que são sinceras consigo mesmas. Parece que elas sabem quem são, qual Mazal é o delas e quais ferramentas elas têm pra cumpri-lo, qual missão elas devem cumprir aqui nesse Mundo. Recordo-me de quando era criança. Era um garoto esperto e bagunceiro. Não parava quieto, gostava muito de falar e de fazer os outros rirem. Amava quando me achavam engraçado. Amava desenhar – principalmente desenhar sapos – e não escondia de ninguém que minha cor preferida era (e ainda é) o verde. Além disso, amava animais. Entre meus familiares (principalmente entre meu irmão e primos) e entre os amiguinhos de infância era um carinha falador, extrovertido e que “liderava” a bagunça. Veja a foto ao lado: era o próprio “Pestinha”[i] brasileiro! Quando tinha entre nove e onze anos de idade li talvez mais de 20 vezes o livro “Menino Maluquinho” do Ziraldo[ii]. Gostava bastante do final do livro, onde era dito algo do tipo “o Menino Maluquinho cresceu e percebeu-se que ele não havia sido maluquinho e sim uma criança feliz”. Acho que era assim que acabava o livro, mas não tenho certeza agora. Mas de qualquer forma, foi essa a mensagem que ficou pra mim. Eu queria crescer e olhar para trás e ver que eu havia sido um “menino feliz”. Hoje, eu acho que fui.
Até que veio a adolescência. Acho que por ficar com muito receio de as garotas não se interessarem por mim, pela minha forma de ser, comecei a me fechar. Minhas verdades infantis, aquilo que eu sabia sobre eu mesmo foram deliberadamente soterradas com a lama da mediocridade. Mediocridade, como me explicou a Dra. Ana Mariza Fontoura Vidal, é aquilo que é médio, aquilo que massifica e retira as individualidades. Assim, de uma criança extrovertida, passei a ser um adolescente introvertido; de engraçado a chato; de otimista a pessimista; ao final da adolescência e início da juventude, desenhar se tornou mais raro. Até mesmo meu gosto por verde passou batido por uns anos: me forcei a comprar roupas de outras cores, mesmo sem querer usá-las. Tentava deixar de ser “eu mesmo” em diferentes níveis e me diluir na Grande Massa, nem que fosse na marra. Só que não deu certo.
Como é difícil isso de fazer Lech Lechá[iii], de “ir ao encontro de si mesmo”. A tradição judaica diz que as crianças têm uma percepção muito elevada do mundo espiritual. Recordo-me de um texto que o Rabino Nilton Bonder conta uma história em que pessoas de diferentes idades falando da lembrança mais antiga que possuíam. Ao final da história, via-se que a pessoa quanto mais nova fosse, mais ela lembrava da vivência espiritual que tinha tido antes de nascer, do “Banco de Almas” por assim dizer. Quanto mais velha, menos se lembrava, entretanto, mais próxima estava de retornar ao lugar separado pelo Eterno, bendito seja. Quero me focar no primeiro caso. Acho que isso faz muito sentido no contexto que Yeshua colocou: quem não retornar a “ser como criança” não pode herdar esse Reino, que colocarei em um sentido metafórico. Nesse forma que coloco, esse Reino é o cumprir a vontade do Supremo Rei. Aquele que cumprir Sua Bendita Vontade certamente herdará um bom lugar em Seu Reino. Como as crianças chegaram nesse mundo há pouco tempo, elas sabem, teoricamente, melhor que os adultos qual é a Vontade do Rei, bendito seja Ele.
O livro “O Sagrado” [iv] é um livro muito bonito. Fala do “segredo do segredo”. Eu não vou contar o que é o “segredo do segredo”, acho que vale a pena ler o livro. Enquanto lia, percebi que muita coisa que pensava quando criança possui validade hoje. E que eram verdades mais profundas que as verdades que fui adquirindo no lamaçal da mediocridade. Talvez possa ser esse um dos sentidos de quando Yeshua disse sobre “nascer de novo”. “Nascer de novo” é uma possibilidade de se retornar a essa Infância – e de que de lá ninguém saia. Acho que hoje meu trabalho é meio de paleontólogo: com um delicado pincel, preciso ir cavucando e retirando esse Lamaçal, com muito cuidado para não danificar o precioso material que ficou soterrado. É necessário deixar à mostra o que foi desenterrado e expressar a individualidade. Como disse o Rabino David Aaron[v], é apenas assim que podemos expressar o nosso amor, seja pelo Rei, seja por nossos semelhantes.
Concluo lembrando-me da Dra. Ana Mariza, me contando sobre a percepção que teve ao visitar um museu sobre Pablo Picasso: “ele passou a vida inteira para aprender a pintar como Criança...”

Edgard MacFraggin’





[i] Personagem Júnior, do filme “O Pestinha”(Problem Child), EUA, 1990.
[ii] Editora Melhoramentos, 1980.
[iii] Parashá Lech LecháBereshit (Gênesis) 12:1-17:27.
[iv] Do Rabino Nilton Bonder, Editora Rocco, 2007.
[v] “O Amor é Minha Religião” (Love is my Religion), editora Sêfer, 2003.

sábado, 9 de agosto de 2014

O Estreito Caminho do Lech Lechá

              Tenho refletido de uns tempos pra cá na temática do Lech Lechá, da alteridade, de servir ao Eterno de forma pessoal no sentido da identidade que Ele deu a cada um. Penso que tudo isso conversa entre si e é a forma que temos de cumprir nosso Tikun, de ser a forma de cumprir a missão individual que o Eterno nos deu, de consertar a parte fraturada do mundo que cabe a cada um.
                Não sei todos os leitores conhecem o conceito de Lech Lechá (lê-se Ler Lerrá – sendo esse rr com som gutural, semelhante à algumas pronuncias do francês). É um conceito profundo do Judaísmo. Esse é o título de uma parashá (porção semanal) da Torá, porção encontrada em Bereshit (Gênesis) 12:1-17:27. Ali é contada o famoso chamado que D’us fez a Abraão, o “sai da tua terra e da tua parentela...”. Mas Lech Lechá pode ser traduzido como “vá ao encontro de você mesmo”. Estranho, não? Mas é aí que reside o significado profundo do termo. O Eterno sabia que o destino de Abraão era ser pai de uma grande nação, era viver fora da Babilônia, era ter Isaac, etc. Mas Abraão era completamente diferente dessa descrição no início de seu relato. Se ele não saísse “da terra e da parentela” ele seria alguém diferente do que o Eterno tinha para ele. É como se ele não fosse ele mesmo, pois o destino de Abraão era ser um Patriarca. Mas ele só atingiria isso se ele deixasse a situação confortável em que ele vivia, se ele se sacudisse, se levantasse e lutasse para atingir o potencial daquilo que o Eterno havia permitido para ele.  Nesse sentido, cada um de nós tem um Lech Lechá a fazer. E isso tem tudo a ver com alteridade, com individualidade, com um relacionamento pessoal e único com o Espiritual.
                Nesse sentido de Lech Lechá, estive pensando sobre o que Yeshua queria dizer sobre os dois caminhos, o largo e o estreito. Quero mostrar uma outra possível interpretação de todo o capítulo VII do livro de Mattityahu (Mateus), analisando todos os versículos à luz dos versículos 13 e 14, que é quando Yeshua cita esses dois caminhos. A interpretação que darei será diferente da interpretação usual dada aos versos 13 e 14, o que possível de ser feito sob uma ótica de interpretação bíblica judaica. Vou seguir o texto analisando os versículos em blocos, então sugiro para um melhor entendimento uma leitura prévia ou simultânea do capítulo VII de Mattityahu (Mateus). 
·         Versos 1 a 5: Yeshua começa mostrando algo do tipo “cuide da sua vida. Concentre-se em você mesmo, não nos outros. Cuide de realizar o Seu Caminho, Sua Missão, Seu Mazal, Seu Destino.” Desobedecer a esse ponto trará, certamente, tristes consequências.
·         Verso 6: Aquilo que é sagrado é, por definição, aquilo que é separado. No contexto de Lech Lechá, o que há de mais separado para alguém é a sua própria individualidade. Nenhuma outra pessoa possui uma individualidade como a tua. Abrir mão dessa individualidade é abrir mão do Lech Lechá. É dar sua própria vida aos cães, e, caso faça isso, eles a destruirão.
·         Versos 7 a 11: “Peçam continuamente...” Devemos continuamente buscar ao Eterno, perguntando-Lhe qual é o Nosso Caminho. Pois se pedirmos que Ele nos abra uma porta, Ele irá abrir não uma porta qualquer, mas a Porta pela qual devemos entrar, a Porta de nosso próprio Lech Lechá. Ele é nosso Pai: Ele abre as portas boas e fecha as portas más.
·         Verso 12: Yeshua ensina que devemos respeitar a individualidade dos outros, pois cada um de nós aprecia e gosta que nosso individualidade seja respeitada.
·         Versos 13 e 14: Nesse ponto Yeshua trás o magnífico conceito dos Dois Caminhos. Em relação ao Caminho Estreito, uma possível interpretação seja de que ele seja diferente e único para cada um de nós. Ou seja, ele é estreito justamente por apenas uma pessoa poder passar por ele e nenhuma outra. O Caminho Largo é acessível a todos, pois é o Caminho da Massificação, o lugar em que se perde a identidade e passa-se a fazer parte da grande massa – uma massa metafórica em que os ovos, o açúcar, a farinha, a manteiga e o fermento perderam todos a sua própria identidade e se tornaram uma massa única e indistinguível. É esse Caminho Largo o lugar onde as pessoas deixam a Missão que o Eterno as deu, visando seguir o que é mais fácil e cômodo. É o caminho que está em oposição ao Lech Lechá e que conduz à perdição, pois se não seguirmos os Planos do Eterno para nós, estaremos perdidos. “Poucos entram no Caminho Estreito”, disse Yeshua, não por conta de sua estreiteza (pois, nesse sentido, há um “Caminho Estreito” para cada um de nós), mas pela dificuldade que é cumprir o Lech Lechá, o “sair de nossa terra e de nossa parentela”. Fazer o que todo mundo faz, perder a individualidade, ser massificado, andar pelo Caminho Largo é muito mais fácil e confortável que trilhar na contra-mão do sistema, que andar pelo Estreito Caminho do Lech Lechá.
·         Versos 15 a 20: Uma vez que estiver no Estreito Caminho, tome cuidado com as pessoas que se aproximarem de você. Pode ser que eles queiram te oferecer um alimento apetitoso aos olhos e talvez até mesmo ao paladar, mas que será ruim a longo prazo, visto que esse alimento irá te engordar de tal forma que ficarás metaforicamente entalado no Caminho Estreito, tendo que perder tempo com dietas ou correndo o risco de ficar tão gordo que terás que ir pelo Caminho Largo.
·         Versos 21 a 23: Não é todo mundo que diz que cumpre seu Lech Lechá que realmente o cumpre. Baseado no bloco de versos anterior, analise os frutos dessa pessoa, se são frutos de alguém que preserva e faz o bem através de sua individualidade, ou se são frutos de alguém que demonstra frutos de origem massificada.
·          Versos 24 a 27: Existem testes diferentes em tipo e intensidade separados desde o Princípio pelo Eterno para cada um de nós, independentemente de qual dos dois Caminhos iremos trilhar. No Caminho Estreito de cada um estão as ferramentas apropriadas para se proteger desses testes. No Caminho Largo, as ferramentas são impróprias e inúteis. Um homem estava destinado desde o Início dos Tempos a enfrentar uma terrível tempestade. Se ele fosse pelo Caminho Largo, iria encontrar apenas a possibilidade de construir uma casa sobre a areia, quando a tempestade viesse, ele estaria arruinado. Se tomasse seu próprio Estreito Caminho (Lech Lechá) ele teria a chance de construir a casa sobre a Rocha: quando a mesma tempestade viesse, ele estaria protegido. Essa parábola demonstra o poder do Lech Lechá.
·         Versos 28 e 29: o capítulo acaba lindamente ao dizer que “as pessoas admiravam esses ensinamentos de Yeshua, pois ele não ensinava como os ‘outros’ ensinavam, ele transmitia seus conhecimentos com uma ‘autoridade’ própria”, ou seja, a autoridade que alguém possui por andar em Seu Próprio Estreito Caminho – e essa autoridade (a Autoridade de alguém que é Autor) só pode ser obtida assim.


Edgard MacFraggin’ 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Dignidade de ser Diferente


Artigo baseado nos livros “A Dignidade da diferença – Como evitar o Choque de Civilizações”, “Para Curar um Mundo Fraturado – a Ética da Responsabilidade”, ambos do Rabino Lord Jonathan Sacks, “A Rosa de Treze Pétalas: Introdução à Cabala” do Rabino Adin Steinsaltz, “O Amor é minha Religião” do Rabino David Aaron e “A História do Povo de Israel” do historiador e embaixador de Israel Sr. Abba Eban.

                Falar sobre diversidade numa era de pluralidade vastamente percebida pela globalização é um assunto realmente difícil e igualmente necessário. Diversos povos, em todas as eras, passaram por aqui sem sequer saber da existência de diversas civilizações. De nem mesmo saber das dificuldades de outros povos, ou das mazelas que estes enfrentaram. Mas graças aos meios de comunicação instantânea, dificilmente alguém desconhece das mazelas da África, da pobreza da Índia, das guerras do Oriente Médio, das plantações de coca da América do Sul, etc. E nesse momento torna-se possível também uma expansão do “ame ao próximo como a si mesmo”. Hoje é possível com apenas um clique do mouse mandar dinheiro para vítimas de catástrofes naturais ou vítimas da fome em um continente distante. Existem novas possibilidades de se fazer o bem. Mas é justamente essa possibilidade por conta da proximidade que pode ser fonte também de confrontos sangrentos entre povos e culturas.
                Dizem que judeus gostam bastante de perguntas. Então começarei com algumas delas: será que existe dignidade em ser cristão? Será que existe dignidade em ser muçulmano? Ou mesmo judeu? Ou ateu? Ou homossexual? O Rab. Jonathan Sacks chama-nos atenção dizendo que “(a) diferença mais incomoda do que nos engradece”. Bom, pegando uma parte importante da história de Yeshua, um momento em que ele ratifica a Torá dizendo sobre os dois maiores mandamentos “O Eterno é Um, ame o Eterno de todo teu coração” e “ame ao próximo como a ti mesmo” (Mordechai “Marcos” 12:29-31) nos mostra qual deve ser a direção do nosso amor. O nosso amor deve olhar para fora. Deve olhar para um outro sempre, seja esse Outro o Eterno, bendito seja, seja o outro o nosso próximo. E se nos consideramos alguém ou algum povo ou devoto de determinada religião como inimigo, fica outro ensinamento de Yeshua: “ame teu inimigo” (Matityahu “Mateus” 5:44). Nós devemos amar as pessoas, independentemente de credo ou etnia. E acredito que isso passa pelas vias de estender a mão e de não colocar um peso sobre os outros como condição para os amar. Uma forma que gosto de sintetizar o “ame o próximo como a si mesmo” é da seguinte forma: Sinta de forma real a dor virtual de teu próximo. A dor do outro não pode ser sentida fisicamente por um terceiro. Mas em um nível virtual, ou mesmo espiritual, pode ser sentida. E isso nos impulsiona a agir. Agir para socorrer, estender a mão, estancar o sangramento do próximo, seja sangue no sentido físico como no emocional.
                Infelizmente, muitas vezes nós reinterpretamos ou mesmo nos esquecemos dos ensinamentos preciosos da Torá. Nós medimos o outro tomando como padrão a nós mesmos. Se alguém age diferente de mim esse alguém está inexoravelmente errado. E isso nos trava e nos atrapalha. Talvez o ponto que isso mais ocorra seja justamente no ponto mais pessoal da fé: na colocação das cercas. As cercas, de pessoa pra pessoa, são diferentes, até mesmo pela sua natureza. Yeshua nos ensina que “não devemos julgar” os outros (Matityahu “Mateus” 7:1). Os mandamentos, como citei no início do texto, se referem a “amar” e não a “julgar”. Só o Eterno, bendito seja, pode julgar alguém. Ninguém mais.
                Mas então, o que é amar? Segundo o Rab. David Aaron, amar o próximo é semelhante ao ato cabalístico da Criação: nós devemos abrir um espaço em nós mesmos (um “tsimtsum” pessoal” por assim dizer) para que outro diferente de nós possa habitar. “No princípio havia apenas eu...” Ele e o Rab. Steinsaltz enfatizam a importância de não se perder a própria identidade e de reconhecer a identidade do outro. Do atrito de duas identidades distintas surge então a energia, as faíscas explosivas do amor. E isso faz todo sentido: se devemos “amar o próximo como a nós mesmos” como vamos respeitar a individualidade do outro se não respeitamos ou mesmo cultivamos nossa própria individualidade? O Rab. David Aaron coloca "Se digo 'sim' apenas porque não consigo dizer 'não', não estou em um relacionamento. Perdi minha liberdade, minha identidade e meu senso de individualidade. Por outro lado, se tenho vontade de dizer 'não' porque tenho necessidade de afirmar minha independência, não aprecio que somos na verdade um só. Por que dizer 'não' quando compartilhamos um ser? Aqui está uma oportunidade de expressar nossa unidade. Amor significa que sou capaz de dizer 'não', porque não sou você e você não é eu. No entanto, escolho dizer 'sim' porque somos um. Não há conflito ou competição, nenhuma luta por liderança absoluta. Embora sejamos indivíduos distintos e muito diferentes, somos um e nos amamos." Isso é bastante profundo.

                Se perdermos nossa individualidade, perdemos a nossa capacidade de cumprir nosso mazal, nosso destino. O Rab. Steinsaltz afirma que "a pessoa mais 'elevada' do mundo não pode cumprir a missão da pessoa mais 'rebaixada'"  Quando chegarmos ao Mundo Vindouro, o Eterno não nos perguntará algo do tipo “Fulano, por que você não foi como Moisés, como David, como Abraão, ou Isaac ou Jacó?” Ele nos perguntará “Fulano, por que você não foi Fulano?” Este é um ensinamento da Ética dos Pais. Muita das vezes somos intransigentes consigo mesmo. Somos fundamentalistas contra nossa individualidade e muito mais contra a individualidade dos outros.
                Por definição, fundamentalismo é “atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios ou regras”. Assim sendo, pode-se pensar em fundamentalismo judaico, cristão, muçulmano, ateu, LGBT, etc. Qualquer tipo de comportamento humano é passível de ser fundamentalista. Vemos um período assim na própria história do povo de Israel. No período entre a Revolta Macabéia e o nascimento de Yeshua, o poder passou dos gregos para os judeus, mas depois os judeus perdem sua soberania para os Romanos. E o que aconteceu nesse intervalo? Abba Eban coloca que esse período foi marcado pelas expansões territoriais engendradas pelo rei e sumo-sacerdote João Hircano, seguido posteriormente por seus filhos, que era sobrinho do próprio Judá Macabeu. Ele cobrava impostos pesados do povo e os investia em poderio militar. Chegou a anexar os territórios da Samaria, Transjordània e Iduméia. Além disso, forçou que esses povos dominados fossem obrigados a praticar o Judaísmo como religião, algo completamente proibido pela Torá, ou seja, de forçar alguma pessoa a cumprir a Torá. Isso teve um alto custo para o próprio povo judeu: Herodes era um idumeu que fora forçado a cumprir a Torá. Portanto, ele nutria um ódio todo especial contra o nosso povo e colocou esse ódio em prática. Pouco antes do nascimento de Yeshua, os saduceus armam contra o próprio povo e ajudam os Romanos a dominar sobre Israel. Talvez esse episódio da história de Israel seja bastante desconhecido, mas houve sim fundamentalismo judaico no passado. Na Idade Média vemos um forte fundamentalismo cristão, e mais recentemente, fundamentalismos islâmicos, político, ateu, LGBT, etc. Todos esses movimentos fundamentalistas são chamados pelo Rab. Sacks de o “Espírito de Platão”, ou seja, "o que é diferente de mim me ameaça, devo destruí-lo". E esse destruir o diferente é necessariamente “não amar o próximo”.
                A estrutura de pensamento que domina todo o ocidente, das religiões às ações políticas e científicas, é uma estrutura de pensamento grego. Oras, será que ao sair de uma estrutura de pensamento grega deve-se apenas colocar um recheio judaico? Ou será que é importante mudar a estrutura de pensamento de grega para judaica? Eu diria que não é apenas importante: é essencial. Vejamos agora a questão da diferença entre Mandamentos e Cercas. Mandamento é aquilo que a Torá diz que tem que ser, e não é discutível. As cercas são colocações pessoais, autolimitações, visando-se que não se saia do caminho proposto pela Torá. Assim, como exemplo, um ex-alcóolatra tem como cerca o nunca comer um bombom de licor, pois comer um desses pode-se tornar motivo de grande pecado para ele. Mas não é por isso que comer bombom de licor se torna um pecado: ele não pode exigir essa dieta de mais ninguém além dele mesmo. Quem tem dificuldade nessa área é ele, não os outros. Para muitos, comer um bombom de licor é um prazer lícito. Caso contrário, acaba-se entrando em doutrinas que fogem da Torá e que afirmam coisas do tipo “jogar futebol é pecado” ou “mulheres que usam maquiagem são pecadoras”. Isso é um completo absurdo. A Torá permite tudo isso. Mas além de se imporem regras absurdas, as pessoas querem que os outros as cumpram, colocando um peso desnecessário, um peso que está fora dos padrões da Torá nos outros. Ninguém fica mais elevado espiritualmente pelo simples fato de não usar bermuda, ou de não escutar determinado tipo de música ou ver determinado filme. Claro que ninguém irá de bermuda pra um Serviço da Sinagoga, nem irá escutar musicas ou assistir filmes que falem de idolatria. Entretanto, a Torá não nos proíbe de ir ao cinema, de escutar musicas de estilos diferentes e de usar bermudas. São exemplos simples, entretanto, bons exemplos. Se alguém se abstém de escutar Rock n' Roll, ótimo. Mas ele não pode exigir isso de mais ninguém, pois a Torá não proíbe escutar Rock. Entretanto, alguém que teme o Eterno não deve escutar músicas de Rock que falem de idolatria ou que blasfemem contra o Eterno – músicas que também existem no meio do Rock. Só como título de exemplo, existem vários judeus, até mesmo rabinos, que fazem parte de bandas de Rock (vide o chassídico Menachem Herman cantando “Sweet Home, Sweet Jerusalem” – clique aqui no link). Em Romanos 14:3, Sha’ul afirma que “quem come verduras não julgue o que come carne, nem vice-versa”. Creio que devemos ir por aí. Um outro exemplo: o que é pior? Fumar um cigarro ou comer carne de porco? Bom, a Torá proíbe categoricamente o comer porco, mas não nos proíbe de fumar. Existem diversos rabinos e judeus que fumam, por exemplo. Mas fumar pode-se tornar um grande pecado? Sim, pode. Fumar no Shabat e nas Santas Convocações é um grande pecado, pois é proibido acender fogo nesses dias.
             O Rabbi Akiva e seus discípulos exemplificam isso no lamentável episódio da praga de mortandade. Rabbi Akiva ensinava que devemos “amar ao próximo como a nós mesmos”. Então seus discípulos entenderam que “amar o próximo como a si mesmo” significava “não deixe o teu próximo errar”. Assim, se corrigiam a todo momento. Mas a coisa foi ficando mais séria, e, visando impedir que o próximo cometesse um erro, começaram a se agredir fisicamente. Isso desagradou o Eterno, e os discípulos começaram então a morrer, morrendo 24.000 deles, terminando essa praga em Lag BaOmer. E é esse tipo de erro que não devemos cometer. Não devemos colocar ou impor nossas próprias cercas nas demais pessoas.
                A Torá nos ensina que não devemos aprender sobre os costumes idólatras dos outros povos. Não deve haver sequer ecumenismo. Entretanto, não podemos desprezar os demais povos. E cada um deles deixou um boa contribuição para a humanidade, que nós judeus utilizamos. Os ternos (tão usados ternos pretos e camisas brancas) foram inventados por franceses católicos da corte do rei Luís XIV no século XVIII. Os chineses inventaram o papel-moeda, bússola, garfos, macarrão, carrinhos-de-mão, pipas, escova de dentes e papel-higiênico. Os árabes, o hábito de beber café, xampu e instrumentos cirúrgicos (muito semelhantes ao que usamos até hoje).  Protestantes criaram o automóvel e a caneta esferográfica. O Facebook e a lâmpada foram criados por ateus. Um hindu inventou o computador pessoal. Os gregos, a medicina e o método científico. Os óculos então devem ser  um dos objetos mais “pagãos” que existem: o vidro foi criado pelos egípcios, o óculos pelos gregos, sendo posteriormente aperfeiçoados por monges católicos e muçulmanos. Quem vos escreve usa óculos e talvez você que está lendo também.
                O Rab. Jonathan Sacks pondera que existe 1 versículo para "amar o próximo" e 36 versículos para amar o estrangeiro. Os sábios da Mishná afirmam que o canto do campo, as espigas caídas devem servir para os pobres, até mesmo os pobres de outros povos, ainda que estes sejam idólatras. Na Ética do Sinai temos o episódio de Pai Abraão e o idólatra de 70 anos de idade. Pai Abraão pede que este homem apenas agradeça o Eterno pela refeição que teve, mas ele se recusa. Abraão então o expulsa com raiva. O Eterno então pergunta a Abraão: “Eu tenho suportado esse idólatra habitar em Mim por 70 anos e você não pode suportá-lo por cinco minutos?” Quando os egípcios se afogaram, os anjos quiseram comemorar. Mas o Eterno os proibiu e lhes disse: “Minhas criaturas se afogaram e vocês estão celebrando?” O Eterno ama a todos os povos, Baruch HaShem.
      Assim, volto a minha pergunta inicial: existe dignidade em ser cristão? Existe dignidade em ser muçulmano? Ou mesmo judeu? Ou ateu? Ou homossexual? É claro que existe, em todos os casos. As pessoas não representam os erros de seus movimentos. Todas elas são a Imagem do Eterno. E será que existe dignidade em ser à Imagem do Eterno? É óbvio que sim. O Eterno nos deu liberdade. Quem somos nós para querer se colocar no lugar dEle, que Ele não permita, e querer podar a liberdade dos outros? Ainda, há espaço para o Bnei Noach no Judaísmo – os rabinos ensinam que não há necessidade de se tornar um judeu! Segundo o site do Chabad, o próprio Maimônides era o médico pessoal do Grande Vizir Alfadhil e do Sultão Saladin, ou seja ele cuidava da vida e da saúde desses lideres muçulmanos. Há dignidade em ser judeu, cristão, muçulmano, ateu, etc, pois há dignidade em ser a Imagem e Semelhança do divino.
O Rab. Sacks ensina que a grande diversidade de produtos que existe no Mercado o engrandece e não o diminui. Nossas diferenças também nos engrandecem: cada povo contribuiu com sua própria cultura para a humanidade. Ai de nós se todas indústrias produzissem os mesmos produtos. Esse exemplo serve para mostrar que nossas diferenças nos engrandecem, ensina o Rab. Sacks. As relações de comércio sempre foram uma alternativa à guerra.
E como usar a individualidade para amar o próximo? Aqui entra a criatividade. Creio que cada um tem seu próprio pedacinho do mundo pra consertar. Hoje a internet facilita muito isso também. Basta querer, procurar, se informar que as possibilidades de “colocar a mão na massa” surgem. Que HaShem nos ajude nesse sentido.

Edgard MacFraggin'

domingo, 3 de novembro de 2013

Um chamado à Responsabilidade

 “Ama o próximo como a ti mesmo” Levítico 19:18.
Seis mil idiomas são falados ao redor do mundo hoje, mas apenas um deles é verdadeiramente universal: a linguagem das lágrimas” Rabino Jonathan Sacks
Vivemos em tempos difíceis. Vivemos em um mundo hedonista em grande parte, que valoriza o próprio indivíduo, a busca de satisfação pessoal mesmo em detrimento do bem-estar de outros. O Judaísmo vai de encontro a todo esse pensamento: é uma religião que praticamente não fala do “eu”. Fala do “Shemá Israel” e do “ama o próximo como a ti mesmo”. É sempre sobre um Outro ou sobre vários outros. É, assim, uma religião que exige uma Ética. Não apenas pregar, mas exercer ação. É a Ética da Responsabilidade.
Mas por que a pobreza é um problema? O rabino Jonathan Sacks afirma que a pobreza não dignifica a alma e nem a refina; ela faz apenas a pessoa se voltar para dentro de si, anestesiando sua sensibilidade, aniquilando o espirito e humilhando a própria alma. Os Sábios se recusam a romantizar a pobreza. Classificam-na como um mal implacável. Dizem que “numa casa a pobreza é pior do que 50 pragas”. Ainda, dizem que “a pobreza é uma forma de morte”. Vale lembrar-se de uma das rezas do Sidur que diz que “Os idólatras não louvam ao Eterno; nem os que descem à sepultura”. Uma pessoa pobre não pode servir a Hashem adequadamente. Os sábios afirmam que “se não há o que comer, não pode haver Torá”. Maimônides afirmava que era impossível direcionar a mente para coisas elevadas quando se tem fome, sede, dor ou falta de abrigo. A pobreza nos impede o correto relacionamento com o Eterno. Impede que desfrutemos dos prazeres lícitos que Ele fez para nós, para todos nós.
A Torá coloca claramente que todos nós que servimos a Hashem temos um dever social de cuidar do próximo. Devemos agir com responsabilidade. Segundo o rabino Jonathan Sacks, responsabilidade vem da junção de duas palavras: resposta e habilidade, i.e., ter habilidade em dar resposta de forma adequada aos problemas que existem no mundo. O Eterno, bendito seja, nos chama a ser Seus Sócios na Criação, afirmam os Sábios. Chama-nos a criar, a dar continuidade na Sua Obra. Nos chama também para retificar aquilo que foi quebrado. Recordo-me de um episódio da história de Moisés: o episódio em que ele quebra Tábuas da Lei. Estas haviam sido dadas pelo Eterno, já prontas. Agora, para ter as segundas Tábuas, Moisés teria que ele mesmo entalhá-las. Fica disso um princípio: “você quebrou, você conserta”. Nós quebramos o mundo inteiro, todos nós representados em Adão. Temos, portanto, o dever de curar a Terra, de consertar as fraturas, de juntar os fragmentos. A Cabalá Luriânica fala a respeito disso, dos fragmentos. Cremos que Yeshua foi o primeiro recipiente que se fragmentou: cada fragmento tem uma centelha de luz divina. E devemos juntar esses fragmentos, consertar essas fraturas, pois isto é o Corpo do Messias, o corpo do Adam Cadmon.
Existe um provérbio judaico que afirma que “as necessidades físicas do teu próximo são tuas necessidades espirituais”. Yeshua ratificou em Marcos 12:31 o que já havia aparecido em Levítico 19:18. Entretanto, compreender a dor de outra pessoa é praticamente impossível. Eu não posso sentir a fome de uma pessoa estando alimentado; ainda que tivesse fome, a minha poderia ser em nível menor que a de outra pessoa. O mesmo vale para ter sede, para estar nu, estar doente, etc. São coisas extremamente subjetivas, são coisas virtuais. Então, que fazer? Pensemos assim: sinta de forma real a dor virtual do teu próximo. Pode-se destrinchar “dor” em muitas coisas, entre elas fome, sede, doença, pobreza, nudez, tristeza, solidão, etc. Yeshua apresenta exatamente esses pontos em Mateus 25:35-40: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondeu-lhes: em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Isso nos mostra a profundidade da prática da fé judaica por Yeshua. Servir ao Eterno não implica apenas as rezas, ritos, etc. Tão certo também não é apenas fazer o bem aos outros. São as duas coisas, necessariamente. Como ratificado por Yeshua, “Shemá Israel e ama o próximo como a ti mesmo”. Isso é servir ao Eterno, bendito seja. As duas primeiras perguntas de Bereshit mostram isso claramente. “Homem, onde está você?” e “onde está teu irmão?” Isso mostra que nós além do dever de nos relacionar com D’us devemos cuidar de nossos irmãos. Caim perguntou “acaso sou eu guardador do meu irmão?” e a resposta para isso era “sim”. Somos responsáveis pelos nossos irmãos. O conceito de Simchá não pode ser entendido como algo solitário. É uma alegria que surge do compartilhar, do coletivo, de algo que existe justamente porque nós compartilhamos.  
Estava refletindo sobre a questão de Yom Kippur. Muitos de nós já participamos desse dia, fazendo um jejum completo de alimentos e líquidos por 25 horas. Espiritualmente falando, nos elevamos muito, é um dia de configuração espiritual única. Agora, fisicamente falando, é muito difícil. Ficar em pé, rezar por um dia inteiro, sem água, sem comida, sem nenhum prazer. E isso é apenas um dia. Os sábios falam que se alguém faz muitos jejuns, chegando a passar mal por isso, essa pessoa é duas vezes pecadoras. O Eterno nos deu prazeres lícitos, e estes devemos aproveitar. Nossos sábios ensinam que iremos responder no Mundo Vindouro por cada prazer lícito que deixamos de aproveitar. Agora, pensemos um pouco em tantas pessoas que passam pela experiência física do Yom Kippur praticamente todos os dias do ano! E elas não tem elevação espiritual alguma. Apenas sofrem. “Ama o próximo como a ti mesmo”: lembre-se do teu próprio sofrimento físico no último Yom Kippur quando alguém vier lhe pedir algum dinheiro para comprar comida.
O rab. Sacks afirma que “a vida é um chamado de D’us à responsabilidade”. Ainda, coloca que “nós aprendemos sobre D’us emulando-O mais do que O contemplando”. Vivemos em tempos em que conceitos espirituais profundos são substituídos por coisas frias e sem vida. Vivemos um tempo em que pessoas ditas religiosas delegam sua ação para o Governo, transformado a Ética que deveriam ter em Política, a obrigação moral em legislação fria e o envolvimento pessoal em órgãos públicos sem rosto (rab. Sacks). Lembro-me de uma vez que escutei um líder de determinado seguimento religioso afirmando que “nós [instituição religiosa] não temos o dever de fazer ação social; quem deve fazer isso é o governo”. Parecia que ele dava razão ao que Karl Marx disse sobre a religião: que ela é ópio do povo. Marx acreditava que a religião servia apenas para manter o Status Quo existente, dignificar a pobreza, justificar doenças e conter as massas. Ele acreditava que para o mundo melhorar a religião deveria simplesmente desaparecer. Não podia estar mais enganado. Ele, um neto de rabino, não compreendeu o que é o Judaísmo. Judaísmo é uma religião que surge não da aceitação do Status Quo, mas de uma revolta contra ele. Não aceita o conformismo. Abraão nosso pai vivia em meio à idolatria e ele se rebela contra isso trazendo a prática do monoteísmo à Terra de forma ininterrupta até nossos dias. Ele se levantou justamente contra os impérios politeístas egípcio e mesopotâmico – sendo que estes sim usavam a religião para glorificar os reis/faraós, oprimir o povo e conter as massas. O Judaísmo começa dando liberdade a um povo escravo, e não o escravizando.

O Pirkê Avot nos conta que certa vez um homem muito rico foi dar uma festa. Ele tinha 20 conjuntos belíssimos de talheres de prata e convidou outras 19 pessoas para jantar com ele. Estava tudo pronto: 20 lugares dispostos na mesa e os conjuntos de talheres em seus lugares. Os convidados foram chegando um a um e tomando seus lugares. O último convidado chegou, sentou-se a percebeu algo estranho: ele não tinha talheres. Foi falar então com o anfitrião da festa sobre isso. O anfitrião lhe disse que tinha talheres para todos e que se não havia talheres para ele apenas uma coisa poderia ter acontecido: algum dos convidados estava com dois conjuntos de talheres. Isso ilustra bem o que aconteceu com o nosso mundo. O Eterno criou recursos naturais para todos, o sol brilha para todos, o ar é de todos, os recursos aquáticos e terrestres também são de todos. Entretanto, nem todos têm o que o que comer ou que beber, por exemplo. O que se deduz disso: se alguns não têm, significa que outros têm mais do que deveriam, estão com as partes que são de outras pessoas. Existem muitas pessoas sofrendo de obesidade mórbida nos Estados Unidos, enquanto outras morrem de inanição na África. Onde está a justiça nisso? É nosso dever fazer essa justiça, dar àqueles que não têm o que o Eterno proveu a cada ser humano.

Certa vez perguntaram ao rabino Chayim de Brisk (1853 – 1918) quais eram os deveres de um rabino. Ele respondeu que era o de “aliviar a dor daqueles que estão sozinhos e abandonados, proteger a dignidade do pobre e salvar o oprimido das mãos do opressor”. E será que esse é um dever exclusivo de um rabino? Creio que não. O rabino fica de costas para a congregação durante o serviço ao Eterno, pois ele também tem que prestar o seu serviço ao Eterno. De modo semelhante, temos uma missão semelhante a do rabino quanto ao próximo, Yeshua mesmo nos ensinou isso. O rabino Chayim de Brisk era um homem que vivia endividado por ajudar os outros. Apesar disso, no inverno ele deixava as portas de sua madeireira aberta para que os pobres pudessem lá entrar e pegar lenha sem ter que passar pela humilhação de ter que pedir. Quando madeireiros não-judeus o questionavam sobre isso, por conta dos supostos prejuízos que isso causavam a eles, ele respondia que “estava economizando dinheiro para a saúde pública”. Caso não fizesse assim, iria acabar pegando uma pneumonia, visto que não teria coragem de acender sua própria lareira sabendo que outras pessoas não tinham como se manter aquecidas.  
Certa vez, o Rebe de Kamiker decidiu passar um dia inteiro recitando Salmos. O maguid de Tsidnov mandou que um mensageiro lhe chamasse. Ele disse ao mensageiro que iria mais tarde, pois ainda queria recitar mais Salmos. O mensageiro foi ao maguid e voltou ao Rebe dizendo que o maguid precisava dele com urgência. Quando o Rebe encontrou o maguid este lhe perguntou o motivo de tamanha demora, pois o maguid desejava que o Rebe saísse para coletar dinheiro para um homem pobre. Quando soube que o Rebe demorou por estar recitando Salmos lhe disse: “Salmos podem ser entoados por anjos, mas apenas seres humanos podem ajudar os pobres. A caridade é mais importante que do que recitar Salmos, pois os anjos não podem fazer caridade”.
Todas as sextas-feiras antes do sol nascer, o Rebe de Nemirov desaparecia. Não era possível encontrá-lo nas sinagogas ou em casas de oração. Sua casa ficava com as portas abertas, mas ele não era encontrado ali. Um homem de outra cidade ao saber disso perguntou aos discípulos do Rebe para onde ele ia. Eles responderam que certamente ele ia aos céus pleitear pela paz, sustento e saúde para a cidade. O forasteiro ficou incrédulo quanto a isso. Decidiu então desvendar o mistério: se escondeu na quinta-feira a noite e seguiu o Rebe sem que ele percebesse. O Rebe saiu de casa vestindo roupas comuns e carregava um machado; seguiu até a floresta, derrubou uma árvore e a dividiu em pedaços de lenha. Pegou a lenha e voltou para uma um parte afastada da cidade, numa ruazinha distante do centro. Bateu na porta de um casebre e uma senhora idosa, pobre e adoentada abriu. Ela lhe perguntou quem ele era e ele disse que estava vendendo lenha muito barata, quase de graça. A senhora disse que não tinha dinheiro. Ele disse que daria crédito a ela; ela respondeu que não teria como pagar posteriormente. Ele disse: “a senhora não confia em D’us? Ele fará que eu seja pago”. A senhora disse que não teria condições também de acender o fogo e ele o acendeu. Enquanto o acendia, ele recitava em voz quase inaudível as Bênçãos Matinais. Depois disso, ele voltou para a casa dele. O homem que o seguia se tornou então um discípulo dele. E quando escutava alguém dizer que nas sextas o Rebe ia aos céus, ele dizia “e talvez até além”.
Quando do episodio de Mordechai e Ester, Mordechai lhe disse que se ela se calasse perante aquela situação, o Eterno levantaria outro homem para trazer livramento aos judeus, mas que talvez o motivo dela ter chegado ao reinado tenha sido exatamente esse (Ester 4:14). Se não fizermos o que devemos fazer, talvez outros o façam, mas nunca teremos cumprido a que o Eterno nos deu a fazer aqui.
Mas então, como fazer tsedaká? Maimônides ensinava que existem oito formas diferentes de fazer, com diferentes graus de elevação. Falarei da mais elevada para a menos elevada:
1)      Tirando um necessitado da situação de pobreza: dando-lhe um presente ou empréstimo, acolhendo-o como sócio, ajudando-o a conseguir um emprego. Retirando dele a situação de humilhação por necessitar de outros.
2)      Doar secretamente: quem doa não sabe para quem vai, quem recebe não sabe de onde veio.
3)      Doar anonimamente: o doador sabe para quem vai, mas quem recebe não sabe de quem veio;
4)      Beneficiado sabe de onde veio: o doador não sabe para quem vai. Muitos sábios amarravam moedas nos seus xales e as jogavam para trás, de forma que os pobres podiam pegá-las sem ter que passar pela humilhação de pedir.
5)      Ajudar um necessitado antes que ele peça;
6)      Ajudar um necessitado depois que ele pede;
7)      Dar menos do que o pobre necessita, mas de forma amável;
8)      O mais baixo grau é o daquele que doa de má vontade.
O povo judeu é um povo interessante. O midrash pergunta “quem é que pode entender esse povo? Quando lhe pedem uma contribuição para fazer um bezerro de ouro, eles dão. Quando lhes pedem uma contribuição para a construção de um santuário, eles dão”. Tsedakah se aloja muito perto da essência do que é ser um judeu. Os rabinos afirmam que se “uma pessoa é cruel e sem compaixão, há razão suficiente para desconfiar de sua ancestralidade”.
Vale ressaltar que ajudar um pobre não significa adotar a pobreza para si mesmo. Nenhum carente foi ajudado por saber que um santo tomou o seu partido. Foi ajudado porque teve a chance de não ser pobre. Existe também um princípio que mesmo uma pessoa que recebe tsedakah deve dar tsedakah. Observa-se isso claramente em uma das partes do filme “Ushpizin”, quando Moshe Belanga, depois de receber uma tsedakah que muito precisava, separa uma parte e dá de tsedakah para o Ben Baruch.
Mas quem é esse nosso próximo? O rabino Meir Melamed comenta que Jacó chama a uns pastores desconhecidos, sem distinção de nacionalidade de “irmãos”. Os sábios no período da Mishná ensinaram a prática do “Darkê Shalom” (Caminhos de Paz). Eles diziam que “em benefício da paz, deve ser permitido aos gentios pobres apanhar as espigas deixadas no campo depois da ceifa, recolher os feixes esquecidos e colher dos cantos do campo; (...) devemos sustentar os gentios pobres como sustentamos os do nosso povo, devemos visitar os gentios doentes como visitamos os nossos e devemos sepultar os deles como sepultamos os nossos”. Vale lembrar que o período da Mishná os judeus estavam na Diáspora. Eram minorias que tinham conhecido a assimilação ou a revolta armada, e nenhum desses caminhos havia dado bons resultados. Assim, propõem um novo caminho, os Caminhos de Paz. Esse caminho não significa ter paz, mas criar ações que possam levar a uma boa convivência. Dificilmente teremos paz no meio de idólatras. Mas devemos fazer o bem, compreendendo que cada ser humano possui uma fagulha divina dentro de si.
O rabi Eleazar costumava dar uma moeda a um pobre antes de recitar suas preces; ensinava que está escrito “através da caridade, eu verei Tua face” (Talmud da Babilônia, Baba Batra 10a). Lembro-me de grupos que faziam evangelismo nas madrugadas de determina cidade. Durante as madrugadas, aquilo que é considerado como escória da sociedade está nas ruas. Prostitutas, travestis, dependentes químicos, mendigos, etc. Cansei de ver cenas de pessoas que vinham pedir dinheiro para voltar para casa ou para comprar comida. A resposta padrão era “eu não tenho dinheiro, mas veja, pegue um folhetinho do JC”. Aparentemente o sofrimento alheio não tinha nenhum problema (principalmente porque quem podia ajudar não estava sofrendo). Parecia ainda que este mundo físico aqui não importa para nada. A pessoa que evangelizava a outra estava fazendo uma “grande bondade”: estava livrando a alma do outro do inferno (como se humanos pudessem determinar quem está salvo e quem está condenado). Ou seja, se a pessoa recusava a “salvação” contida naquele folheto do JC era culpa dela ainda sofrer. Ela estava rejeitando um futuro “bom”. E o pior, depois que acabava o evangelismo e de falar que não tinham dinheiro, o grupo seguia para uma lanchonete pra lanchar. De graça é que o lanche não era. E eu de tudo isso porque durante algum tempo participei desse grupo. Foi bom, mas no sentido de perceber como a mensagem pura e bela da Torá está deturpada. Foi bom no sentido de me fazer olhar a Torá como algo precioso e profundo. Aprendi a lição do que não fazer.
Se alguém lhe pede comida, dê. Se alguém lhe pede água, dê. Quem somos nós para julgar o interior do outro? Que o Eterno nos abençoe e nos ensine a amar e cuidar desse próximo, não como queremos, mas como Ele quer que façamos.
Edgard MacFraggin'

Referências
“Para curar um mundo fraturado”, Rabino Jonathan Sacks, Editora Sêfer.
“A Ética do Sinai”, Irvin Bunim, Editora Sêfer.
“Torá: a Lei de Moisés – com tradução e comentários pelo Rabino Meir Matzliah Melamed”, 3ª edição, Congregação Religiosa Israelita Beth-el.