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domingo, 26 de julho de 2015

Yeshua (Jesus) disse, de certa forma, que evangelismo não importa

Baseando-me nos "Doze Pontos de Berlim", documento do ICCJ (International Council for Christians and Jews), considero o Novo Testamento como literatura judaica do Primeiro Século. Assim, considere os trechos do Novo Testamento abaixo:

"Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então retribuirá a cada um segundo as suas obras." Mateus 16:27

"Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Pois tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era forasteiro, e recolhestes-me; estava nu, e vestistes-me; enfermo, e visitastes-me; preso, e viestes ver-me. Então perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos faminto, e te demos de comer; ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te recolhemos; ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou preso, e fomos visitar-te? O Rei responderá: Em verdade vos digo que quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, destinado ao Diabo e seus anjos. Pois tive fome, e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era forasteiro, e não me recolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo e preso, e não me visitastes. Também eles perguntarão: Senhor, quando te vimos faminto, com sede, forasteiro, nu, enfermo, ou preso, e não te servimos? Então lhes responderá: Em verdade vos digo que quantas vezes o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. Irão estes para o suplício eterno, porém os justos para a vida eterna." Mateus 25:31-46

"Porque o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o julgamento, para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Pois assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter vida em si mesmos; e deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem. Não vos admireis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida, e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo." João 5:22-29

                Esses textos do NT são muito bons e muito interessantes. Neles todos o próprio Yeshua diz como ele há fazer o julgamento das pessoas. E em nenhum momento ele diz algo do tipo "Aqueles que me aceitarem como senhor e salvador vão para o Céu e quem não me aceitar vai pro Inferno". Se há outros textos do NT que o dizem, pode até ser que sim, entretanto os outros textos não foram ditos por Yeshua. Mesmo no livro de Revelação, quando ele diz "Eis que estou a porta e bato..." não pode ser interpretado literalmente. Alguns dizem que "Yeshua está à porta do coração batendo...": obviamente isso não pode ser entendido de forma literal, pois se assim o fosse, imaginaríamos Yeshua batendo aonde no coração? Entre o átrio direito e a bifurcação das veias cavas? Ou ali perto da aorta? Fica claro que o texto é metafórico. Nós só chamamos alguém pra "ceiar/jantar em nossa casa" se é alguém que conhecemos e temos amizade. E se conhecemos, somos influenciados uns pelos outros e temos um estilo de vida parecido. Assim, se "Yeshua entrar e ceiar contigo" significa muito mais que teu estilo de vida será como o estilo de vida ensinado por ele. E qual estilo de vida ele nos ensinou? O de fazer boas obras.
                Em diversos pontos do relato de Yeshua ele se preocupa com dificuldades físicas das pessoas, e não com a "salvação espiritual" delas. Ele se preocupa com a multidão faminta de pão física e não em fazer um apelo evangelístico. Ele diz em Mateus 25 (o texto citado acima) sobre comer, beber, vestir, cuidar, etc, todas coisas físicas. Pode ser até que muitos dos "bodes malditos" a que ele se refere fossem excelente evangelistas: pregavam, pregavam e pregavam, mas quando alguém precisava de coisas até simples como comida, ele não o dava. Isso é muito sério. Podem citar quem quer que seja, não importa, Yeshua disse que julgará as obras de cada um.
                Como demonstrar amor por Deus? Só amando o próximo. É a única forma. Fazer caridade é forma mais profunda de servir a Deus. Os anjos podem cantar melhor e mais bonito do que ninguém. Mas tem uma coisa que eu nunca vi anjo fazer, e acho que nunca vou ver: nunca vi um anjo dar um abraço em um mendigo, ou comprar comida pra um mendigo, ou roupas, etc. O Eterno, bendito Seja, já nos comandou fazer isso. Se a gente não fizer, ninguém mais o fará. E se não o fizermos, seremos "malditos" diante de Yeshua.
                Pense nisso. Separe 5% do seu salário todo mês pra caridade, isso fará uma enorme diferença. O evangelismo, embora eu seja absolutamente contrário a ele, nunca deve vir antes da caridade. Os filhos do Eterno devem ser "vistos e não ouvidos". Os frutos de uma árvore não são escutados e sim observados. Mostre teus frutos pra todos os que precisarem diante de você.

Edgard MacFraggin'



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Do que ele (também?) nos salvou

Para escrever esse artigo eu me baseei em muitas conversas que tive com uma grande amiga a sra Ana Mariza Fontoura Vidal, que é uma "grande mãe" pra mim. No período em que morei no interior de São Paulo ela me orientou bastante. Assim, muitas das ideias desse texto foram extraídas de reflexões dela ou de reflexões que ela me conduziu a chegar em nossos papos.
                Tenho observado de alguns meses para cá o quanto a figura de Yeshua/Jesus gera interesse e controvérsias em diferentes meios, mas principalmente entre Cristianismo e Judaísmo. Muitos judeus dizem, categoricamente, que "ele [Yeshua/Jesus] não pode ter morrido pelos pecados de ninguém, pois a Torá diz que cada um morrerá pelo seu próprio pecado" (vide Deuteronômio 24:16). Esse é um argumento muito forte e eu acho que tem bastante fundamento, pois cada um de nós vai morrer um dia e cada um pagará por suas transgreções. É isso o que eu acredito, mas pode ser que não seja assim. Muitas dessas coisas, só o Eterno sabe como será.
                Entretanto, não devemos jamais menosprezar tudo o que aconteceu por conta de Yeshua/Jesus. Quero falar justamente sobre isso: será que falar que Yeshua/Jesus nos salvou só pode ser interpretado em um único sentido?
                Eu acredito que não. Existe uma possibilidade mais ampla relacionado a essa questão. Vejamos os povos que cercavam os judeus na época de Yeshua/Jesus. Qual daqueles povos era sequer B'nei Noach1? Nenhum deles. E muito longe disso, faziam coisas abominavéis. E mesmo em outros continentes a coisa não era muito diferente. Peguemos um exemplo da Europa, os Vikings. Eu gosto bastante dos Vikings, admiro sua cultura e povo, entretanto, imagine viver naquela época: eles eram bárbaros, brutais, rituais assassinos eram comuns, entre outras coisas. Algo completamente longe do ideal Noético. Só com o avançar do Cristianismo que as coisas foram mudando. Por conta do Cristianismo, os povos foram cada vez mais, em certo sentido, se aproximando da prática das Leis de Noé.
                Talvez nem cristãos e nem muçulmanos conheçam as Sete Leis, mas a prática deles se aproxima e muito dessas Leis. Muito mesmo, talvez não de forma ideal, mas certamente muito melhor que a prática pagã-bárbara de outros povos. E quem foi peça chave nisso tudo? Justamente Yeshua/Jesus. Por conta de sua mensagem, embora muitas vezes mal interpretada, muitos povos e a humanidade de modo geral pôde se aproximar da prática das Leis Noéticas. E se um não-judeu que pratica essas leis serve ao Eterno, o Deus de Israel, então acredito que foi esse o tipo de "salvação" que Yeshua trouxe: a possibilidade de conhecer o Deus dos judeus, o monoteísmo bíblico. Por conta de Yeshua/Jesus, os povos tiveram acesso, via Cristianismo, à cultura e aos textos Judaicos. E isso é e foi algo muito bom. O que ainda nos falta é união e respeito às diferenças.
                Estamos no momento agora do diálogo inter-religioso. Esse é o tema do momento. Diversos rabinos e padres, desde o final da Segunda Guerra Mundial estão trabalhando em pról disso. Judeus/Judaísmo ficar criticando Cristãos/Cristianismo e vice-versa é algo completamente abominável e retrógrado. É lamentável ver isso ainda atualmente. Uma instituição Judaica ou Cristã que não fala sobre isso está parada no tempo. Uma instituição que fica criticando outra fé está remando contra a maré. Esse momento de brigar deveria nunca ter acontecido; mas como aconteceu, deveria ter ficado lá século 15 ou 16. O momento agora é de nos unirmos. Se Yeshua/Jesus é o Messias ou não, um dia todos vamos descobrir. Por enquanto, cada um tem a sua fé, que deve ser respeitada. E isso está até no documento "Os 12 pontos de Berlim"2. Vale a pena a leitura desse importantíssimo documento.
                Pense, reflita sobre isso. Yeshua/Jesus fez algo importantíssmo. E ele possibilitou sim a "salvação da humanidade". Pelo menos em certo sentido.
Edgard MacFraggin'

[1] B'nei Noach são os "Filhos de Noé"; são aqueles que seguem as Sete Leis Noéticas, leis pelas quais um não-judeu pode servir o Deus de Israel. Clique nesse link para ver as Sete Leis 
[2] A leitura desse documento pode ser encontrada clicando nesse link 

sábado, 3 de janeiro de 2015

É pelos frutos que se conhece a árvore


             
  Minha mãe nasceu e cresceu em uma cidade muito pequena, no interior do Maranhão. Era uma cidade muito pobre, e as condições de vida eram muito ruins. Como somos uma família bastante assimilada por conta das perseguições contra os judeus, meus bisavós, avós, etc, frequentavam uma igreja ali nessa cidade, era uma Igreja Assembléia de Deus. A realidade dentro da igreja era extremamente rígida, segundo minha mãe. Era tão complicado que ela cresceu achando que, metaforicamente, “D’us era um homem de barba longa e branca, com um cajado na mão, pronto pra cacetar e castigar todo mundo”. Os líderes do local usavam interpretações absurdas dos textos bíblicos em benefício próprio.

                Os membros desse grupo religioso eram constantemente punidos pela liderança da igreja. Se uma irmã usava um simples batom, era acusada de ser “pecadora”. Usar um perfume melhorzinho então nem pensar: se a esposa do pastor percebesse, a irmã era posta em “disciplina”. Se um irmão se vestia um pouco melhor, era posto em disciplina e a culpa que ele tinha era que ele era “vaidoso”. Se alguém questionasse a atitude da liderança, era taxado de “rebelde”. Entretanto, os pastores e líderes, em suas vidas particulares viviam muito bem. Embora fossem raros na época, eles tinham automóveis, e eram carros bons para aquele tempo. Eles viviam integralmente do trabalho religioso, tinham seus salários pagos completamente pelo dízimo de quem frequentava aquele grupo religioso. É claro que ter um padrão de vida justo é muito bom, dificuldades físicas nos atrapalham a servir a D’us e Maimonides mesmo ensinava isso. Mas como um pastor podia ter um padrão de vida muito melhor que os membros que frequentavam sua igreja? O pastor recebia o dízimo de pessoas às vezes muito pobres e que até mesmo passavam fome. Os membros da igreja moravam em bairros horríveis e muito pobres, cheios de violência, enquanto o líder tinha um bela casa, e nela tinha todo o tipo de luxo daquele tempo. Será que isso é justo? Se alguém quiser ter luxos, tem todo o direito de ter. Mas que trabalhe para isso. Existem muitos líderes religiosos, como pastores, rabinos, etc, que além de exercerem o serviço religioso também tem seus empregos próprios empregos, sendo, durante a semana, profissionais liberais, funcionários púbicos, professores, médicos, etc. Além de contribuir para a sociedade, não são pesados para suas próprias congregações. Aos que vivem integralmente de seu ministério religioso é recomendável que tenham um padrão de vida compatível com o padrão de vida das pessoas que frequentam o local ao qual lideram. Isso é também “fugir da aparência do mal”.

                Ali naquele local que minha família frequentava, constantemente os membros passavam por humilhações, partidas da própria liderança. Dentro da tradição judaica, é enfatizado fortemente sobre a proibição de humilhar alguém. Vovó contou-me sobre uma mulher que não podia ter filhos. Por conta disso, ela foi considerada ali na igreja como uma mulher que carregava algum tipo de grave maldição. Isso me faz lembrar aquelas religiões tribais africanas, em que mulheres que não tinham filhos eram expulsas da convivência com a comunidade, eram extremamente humilhadas e além de carregar o sofrimento de não poderem ter filhos, tinham que carregar humilhação pública imposta pela liderança da tribo por conta de ela não poder ter filhos. E como é isso na tradição judaica? Diversas mulheres que não podiam engravidar eram na verdade mulheres elevadíssimas espiritualmente! Sarah, Raquel, Ana, a mãe de Sansão, entre outras, eram mulheres que não podiam ter filhos. E isso não era algo do tipo “D’us está te castigando, você deve ter cometido um grave pecado para isso ter acontecido” ou coisa semelhante. O Eterno tem seus planos. E essas mulheres, embora fossem estéreis eram mais elevadas espiritualmente do que muitas mulheres que tinham muitos filhos. As mulheres não são como vacas que tem que parir um bezerro por ano, e as vacas que não são capazes de parir um bezerro por ano são abatidas. Cada um tem sua própria medida, que o Eterno abençoe a todos nós. Que o Eterno nos livre de aumentar a dor dos outros, mas que possamos ser pessoas que ajudam os outros. Que nossa compaixão e benevolência sejam maiores que nossa rigidez.

                Era complicado também quando a igreja passava por alguma dificuldade. Se havia dificuldade financeira, a culpa era dos membros que não oravam o suficiente. Ou então, a culpa era dos membros por eles terem falta de santidade. A culpa era sempre dos membros, nunca da liderança. A liderança era aparentemente um exemplo de santidade a ser seguido sem nunca ser questionado. Eles se esqueceram de que somos todos humanos e todos sujeitos a ter falhas. Ninguém é perfeito. Podemos nos esforçar para melhorar e devemos fazer isso, mas até o nosso último suspiro seremos incomodados por nossa própria inclinação ruim. Como disse o Messias, “por que me chama de bom? Bom é só o meu Pai”. E é muito interessante ver como é isso na tradição rabínica. Por exemplo, o rabino Nilton Bonder, no livro “A Cabalá da Inveja”, na página 113, diz o seguinte:

“Quando você acusa alguém e pronuncia um julgamento sobre esta pessoa, dizendo que ela merece isto ou aquilo, está pronunciando julgamento sobre si mesmo. Apesar do erro cometido pelo outro parecer estranho à sua maneira de ser e de se comportar, você já terá cometido de forma semelhante este mesmo erro. Se você acusa alguém de, por exemplo, idolatria, você será, com certeza, culpado por orgulho – que é, em si, uma forma de idolatria. E seu erro pode ser maior que aquele que você aponta, pois o julgamento sobre você será ainda mais severo e crítico. Porém, se você justifica aquele que está errado, desculpando-o pelo fato de estar ainda aprisionado à sua encarnação e não poder controlar seus desejos, então você estará justificando a si mesmo.

Assim, semelhantemente, quando acusamos alguém de “falta de santidade” significa apenas que há falta de santidade em nossas vidas também, de alguma forma. Se acusarmos alguém de “não orar o suficiente” significa que de alguma forma também não o fazemos. Talvez, viver uma vida de santidade tenha muito mais a ver com a forma que nos postamos diante da vida, se agimos de forma ética, se respeitamos o próximo a cuidamos da Criação. Vivemos numa era em “ter é ser”, gostamos muito mais da aparência externa das coisas do que elas realmente são. Chimpanzés não podem fazer caridade, não podem dar alimento aos pobres, não podem fazer uma porção de coisas que o Eterno nos ordenou fazer. Entretanto, qualquer chimpanzé pode vestir um terno, ou uma saia até o calcanhar, ou ir pra igreja todos os domingos. É claro que se vestir bem e decentemente é muito importante, mas a vida não se resume ao modo que nos vestimos ou àquilo que comemos. De que adianta se vestir de maneira “santa” ou de maneira “kosher” e sair por aí humilhando todo mundo? Que o Eterno nos livre de viver uma vida de aparências, de parecer uma coisa por fora e na verdade viver algo bastante diferente daquilo que falamos com nossos lábios.

Tudo isso me faz lembrar sobre a Halachá. A forma de aplicar a Halachá pode ser explicada com a seguinte metáfora. Imagine que, metaforicamente, um pitbull queira servir a D’us. Por conta de sua natureza selvagem e violenta, esse pitbull precisa de barreiras para se controlar. Assim, a Halachá que um pitbull deve aplicar a si mesmo é semelhante à uma focinheira de couro forte e reforçada com uma coleira de ferro maciço. Algo muito forte e pesado, para que o pitbull possa se controlar e servir a D’us da melhor forma possível. Se esse pitbull aplica essa rigidez a ele mesmo, ele faz muito bem. Agora, imagine outra situação: esse mesmo pitbull que aplica a si mesmo uma halachá rígida como uma focinheira e coleira de ferro encontra um gatinho da raça angorá, uma raça conhecida por ser dócil e gostar muito de contato social. Daí, esse gatinho também quer servir ao Eterno. Será que esse gatinho que tem uma natureza completamente diferente do pitbull precisa de uma focinheira e coleira de ferro maciço? É claro que não. E o pitbull comete um grande pecado se ele quiser impor o uso de sua própria focinheira e coleira de ferro no gatinho. A focinheira e a coleira de ferro são cercas necessárias ao pitbull, mas não são necessárias ao gatinho. Se a focinheira e a coleira de ferro forem coladas no gatinho angorá, ele viverá uma vida infeliz e terrível, trará apenas sofrimento desnecessário à vida dele. E todos nós temos um lado pitbull e um lado gatinho dentro de nós mesmos. Todos nós temos um lado mais fraco e propenso a cometer determinados tipos de pecado e outro lado em que somos mais fortes. Por exemplo, uma pessoa que tem problemas com álcool não come nem mesmo um bombom de licor, pois isso pode ser motivo de grande tropeço para ele. Mas ele querer impor isso a todo mundo, é um grande pecado, pois ele coloca um julgo impossível de carregar em cima dos outros. Temos o dever de aplicar cercas às nossas próprias vidas, mas cometemos um grande erro ao querer que os outros vivam do mesmo modo que vivemos, que apliquem às suas próprias vidas as mesmas cercas que nos impomos e com a mesma rigidez. O julgo do Masshiach existe, mas ele é leve. O Eterno libertou um povo que era escravo no Egito para que ele fosse livre e não para se submeter a um novo tipo de escravidão, a um novo tipo de “humanos dominando humanos”. Escolher viver de forma mais rígida e limita não necessariamente é um sinal de mais santidade, embora possa ser. Escolher viver de forma mais limitada pode ser um sinal de que na verdade a pessoa tem um lado pitbull muito maior e mais forte que seu lado gatinho e assim precisa de muita rigidez em sua conduta – e essa pessoa faz muito bem em se aplicar uma conduta mais rígida, mas comete um grande pecado ao forçar os outros a viver de seu mesmo modo rígido.

                O Masshiach ensinou que é “pelos frutos que se conhece a árvore”. Um pitbull que serve ao Eterno deve ser um pitbull que produza bons frutos. Um pitbull que diz que serve ao Eterno com seus lábios, mas que ao olharmos suas atitudes não verificamos isso é um pitbull no mínimo mentiroso. Um pitbull que diz amar a D’us, mas continua mordendo todo mundo por aí, não serve a D’us. Se nós não cuidamos das pessoas que nós vemos, como vamos amar a D’us, a Quem não vemos?

                Edgard MacFraggin’

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Ame o Idólatra

Talvez o título desse artigo seja, a princípio, um pouco chocante. Mas vamos juntos refletir sobre o tema. E vamos começar pelo amanhecer de cada dia. Todos os dias, ao acordarmos, agradecemos ao Eterno pela alma que Ele nos devolveu, mantendo-nos com vida. Uma possível tradução da reza que recitamos é essa: “Dou graças perante Ti, ó Rei vivo e existente, que devolveste a minha alma com piedade, grande é Tua fé em nós”. O Eterno, bendito seja, demonstra ter fé em nós, por isso Ele devolve, por assim dizer, a nossa alma todos os dias – na tradição rabínica, o momento em que dormimos é considerado como uma mini-morte. Mas justamente pelo Eterno acreditar que nós vamos nos tornar melhores, que vamos servi-Lo e fazer o bem é que Ele nos dá a oportunidade de continuarmos a viver. 

Todas as criaturas vivas, mesmo que não tenham consciência disso, também recebem do Eterno suas almas todos os dias. Talvez possamos inferir disso que Ele também tem fé em todos nós, em toda a humanidade. Um ladrão pode deixar de roubar, um mentiroso pode se arrepender, um idólatra pode se tornar um servo do Eterno. Enquanto há vida, há possibilidade de Retorno, há possibilidade de Teshuvá. Mas se morrermos, as chances acabam. Depois da cova não mais nada que possamos fazer no Plano Físico. 

Os rabinos ensinam que “Sem Torá não há Pão e sem Pão não há Torá”. Não é possível servir ao Eterno adequadamente padecendo necessidades físicas, beirando o leito de morte. Assim, como é que alguma pessoa retornará ao Eterno se tem a morte e o sofrimento como companhias constantes? Ainda mais, como essa pessoa vai querer servir a um D’us que seus próprios seguidores não são capazes de demonstrar amor aos que não pertencem ao seu próprio grupo? Como disse Yeshua, “amar nossos amigos é algo muito fácil, até os pagãos fazem isso - o difícil é amar nossos inimigos” e nós somos chamados a isso. Na parashá Vaietzé (Bereshit “Gênesis” 28:10 – 32:3), Jacó chama a uns pastores de origem étnica desconhecida de “meus irmãos” (Bereshit “Gênesis” 29:4). O Rabino Meir Melamed, em seu comentário sobre o versículo “ama o próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18), chama atenção de que nós devemos amar a todos os homens, pois o termo “irmãos” foi usado para não israelitas. E até mesmo os idólatras fazem parte desse “todos”. Existe uma enorme chance de que os pastores desconhecidos que Jacó chamou de “irmãos” fossem homens idólatras. 

Na Torá, lemos sobre a destruição de uma geração e a destruição de uma cidade. Em ambos os casos, a destruição partiu do Eterno e não de mãos humanas. Antes do Dilúvio, Noé poderia ter anunciado para que o povo se arrependesse, mas não o fez. Por isso, foi considerado um “justo em sua geração”, e essa atitude dele foi criticada por vários rabinos. Antes da destruição de Sodoma-Gomorra, Abraão clama pela cidade ímpia. Ele se importou com a vida humana ali e rezou por eles, ainda que fossem idólatras. O Midrash nos conta que Abraão gostava de receber pessoas desconhecidas em sua casa e lhes oferecia uma refeição, apenas para que ao final dela as pessoas bendizessem o Nome do Eterno. Certa vez, ele recebeu em sua casa um homem idólatra de 70 anos de idade. Depois da refeição Abraão pediu que o homem bendizesse o Eterno, mas ele se recusou. Abraão perdeu a paciência e o 
expulsou de sua tenda. O Eterno então chamou a atenção de Abraão: “Abraão, Eu tenho suportado esse homem idólatra viver em Mim mesmo por 70 anos e você não é capaz de suportá-lo por cinco minutos?” Se o Eterno permite que os idólatras vivam, é porque talvez haja esperança de que eles se convertam de seus caminhos. Se o Eterno assim age, quem somos nós para agirmos de forma diferente supostamente em Nome Dele? O Eterno não mandou que Jonas fosse até a cidade idólatra de Nínive anunciar que se arrependessem? E eles não foram salvos da destruição? Quanto ao amor, não há diferença entre o “guer” e o “gói”, entre o estrangeiro que ama ao Eterno e o Idólatra. Devemos amar a todos. O Rabino Lord Jonathan Sacks chama atenção para o fato de que Torá diz uma única vez “ama ao próximo como a ti mesmo” e 36 vezes “ama o estrangeiro”. Fazendo uma guematria rápida, se somarmos os algarismos temos que:

1 + 36 (1 vez “ama o próximo” + 36 vezes “ama o estrangeiro”) = 1 + 3 + 6 = 10, 

ou seja, talvez possamos entender que nosso amor só é completo quando amamos a todos, sem distinção de etnia, religião, ou qualquer outra coisa, pois o número 10 faz alusão a algo que é completo. Imagine o peso que estará sobre nossas costas no Último Dia se negarmos amor a um idólatra? Se por conta da somatória de nossas atitudes em demonstrar amor e em lhes fazer caridade um deles morrer e nós formos responsáveis pela morte dele? E por ter morrido ele não ter feito Teshuvá? Que o Eterno nos livre disso. Em minha opinião, um idólatra bom é um idólatra vivo, pois apenas vivo ele terá a possibilidade de se arrepender e fazer Teshuvá. Depois de morto, o que poderá ser feito? 

Se negamos estender a mão para quem quer que seja, estamos nos colocando como juízes sobre essa pessoa. E com o “mesmo peso que julgarmos, seremos julgados também”. Que o Eterno nos ensine a fazer Darkê Shalom, a viver “Caminhos de Paz”, como ensina o Rab. Jonathan Sacks, com todos os que nos cercam. Somos realmente proíbidos de participar de qualquer idolatria. Mas se até a vida animal é importante e temos diversos mandamentos quanto a eles, muito mais não temos em relação à preservação da vida humana?

Edgard MacFraggin’

sábado, 11 de outubro de 2014

Lech Lechá: retornando ao começo

Crianças lhe foram trazidas para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas, mas os talmidim repreendiam as pessoas que as traziam. Entrentanto, Yeshua disse: ‘Deixem as crianças chegar até mim e não as impeçam, porque o Reino do Céu pertence a quem é como elas’. Depois de lhes impor as mães, seguiu seu caminho”.
Mattityahu 19:13-15 (BJC)

Eu acho que quase sempre as crianças são muito sinceras, principalmente quando se encontram em um determinado ambiente em que se sentem à vontade. Sempre falam coisas que talvez um adulto não fosse falar, são extremamente sinceras, não apenas com os outros, mas penso que são sinceras consigo mesmas. Parece que elas sabem quem são, qual Mazal é o delas e quais ferramentas elas têm pra cumpri-lo, qual missão elas devem cumprir aqui nesse Mundo. Recordo-me de quando era criança. Era um garoto esperto e bagunceiro. Não parava quieto, gostava muito de falar e de fazer os outros rirem. Amava quando me achavam engraçado. Amava desenhar – principalmente desenhar sapos – e não escondia de ninguém que minha cor preferida era (e ainda é) o verde. Além disso, amava animais. Entre meus familiares (principalmente entre meu irmão e primos) e entre os amiguinhos de infância era um carinha falador, extrovertido e que “liderava” a bagunça. Veja a foto ao lado: era o próprio “Pestinha”[i] brasileiro! Quando tinha entre nove e onze anos de idade li talvez mais de 20 vezes o livro “Menino Maluquinho” do Ziraldo[ii]. Gostava bastante do final do livro, onde era dito algo do tipo “o Menino Maluquinho cresceu e percebeu-se que ele não havia sido maluquinho e sim uma criança feliz”. Acho que era assim que acabava o livro, mas não tenho certeza agora. Mas de qualquer forma, foi essa a mensagem que ficou pra mim. Eu queria crescer e olhar para trás e ver que eu havia sido um “menino feliz”. Hoje, eu acho que fui.
Até que veio a adolescência. Acho que por ficar com muito receio de as garotas não se interessarem por mim, pela minha forma de ser, comecei a me fechar. Minhas verdades infantis, aquilo que eu sabia sobre eu mesmo foram deliberadamente soterradas com a lama da mediocridade. Mediocridade, como me explicou a Dra. Ana Mariza Fontoura Vidal, é aquilo que é médio, aquilo que massifica e retira as individualidades. Assim, de uma criança extrovertida, passei a ser um adolescente introvertido; de engraçado a chato; de otimista a pessimista; ao final da adolescência e início da juventude, desenhar se tornou mais raro. Até mesmo meu gosto por verde passou batido por uns anos: me forcei a comprar roupas de outras cores, mesmo sem querer usá-las. Tentava deixar de ser “eu mesmo” em diferentes níveis e me diluir na Grande Massa, nem que fosse na marra. Só que não deu certo.
Como é difícil isso de fazer Lech Lechá[iii], de “ir ao encontro de si mesmo”. A tradição judaica diz que as crianças têm uma percepção muito elevada do mundo espiritual. Recordo-me de um texto que o Rabino Nilton Bonder conta uma história em que pessoas de diferentes idades falando da lembrança mais antiga que possuíam. Ao final da história, via-se que a pessoa quanto mais nova fosse, mais ela lembrava da vivência espiritual que tinha tido antes de nascer, do “Banco de Almas” por assim dizer. Quanto mais velha, menos se lembrava, entretanto, mais próxima estava de retornar ao lugar separado pelo Eterno, bendito seja. Quero me focar no primeiro caso. Acho que isso faz muito sentido no contexto que Yeshua colocou: quem não retornar a “ser como criança” não pode herdar esse Reino, que colocarei em um sentido metafórico. Nesse forma que coloco, esse Reino é o cumprir a vontade do Supremo Rei. Aquele que cumprir Sua Bendita Vontade certamente herdará um bom lugar em Seu Reino. Como as crianças chegaram nesse mundo há pouco tempo, elas sabem, teoricamente, melhor que os adultos qual é a Vontade do Rei, bendito seja Ele.
O livro “O Sagrado” [iv] é um livro muito bonito. Fala do “segredo do segredo”. Eu não vou contar o que é o “segredo do segredo”, acho que vale a pena ler o livro. Enquanto lia, percebi que muita coisa que pensava quando criança possui validade hoje. E que eram verdades mais profundas que as verdades que fui adquirindo no lamaçal da mediocridade. Talvez possa ser esse um dos sentidos de quando Yeshua disse sobre “nascer de novo”. “Nascer de novo” é uma possibilidade de se retornar a essa Infância – e de que de lá ninguém saia. Acho que hoje meu trabalho é meio de paleontólogo: com um delicado pincel, preciso ir cavucando e retirando esse Lamaçal, com muito cuidado para não danificar o precioso material que ficou soterrado. É necessário deixar à mostra o que foi desenterrado e expressar a individualidade. Como disse o Rabino David Aaron[v], é apenas assim que podemos expressar o nosso amor, seja pelo Rei, seja por nossos semelhantes.
Concluo lembrando-me da Dra. Ana Mariza, me contando sobre a percepção que teve ao visitar um museu sobre Pablo Picasso: “ele passou a vida inteira para aprender a pintar como Criança...”

Edgard MacFraggin’





[i] Personagem Júnior, do filme “O Pestinha”(Problem Child), EUA, 1990.
[ii] Editora Melhoramentos, 1980.
[iii] Parashá Lech LecháBereshit (Gênesis) 12:1-17:27.
[iv] Do Rabino Nilton Bonder, Editora Rocco, 2007.
[v] “O Amor é Minha Religião” (Love is my Religion), editora Sêfer, 2003.

sábado, 9 de agosto de 2014

O Estreito Caminho do Lech Lechá

              Tenho refletido de uns tempos pra cá na temática do Lech Lechá, da alteridade, de servir ao Eterno de forma pessoal no sentido da identidade que Ele deu a cada um. Penso que tudo isso conversa entre si e é a forma que temos de cumprir nosso Tikun, de ser a forma de cumprir a missão individual que o Eterno nos deu, de consertar a parte fraturada do mundo que cabe a cada um.
                Não sei todos os leitores conhecem o conceito de Lech Lechá (lê-se Ler Lerrá – sendo esse rr com som gutural, semelhante à algumas pronuncias do francês). É um conceito profundo do Judaísmo. Esse é o título de uma parashá (porção semanal) da Torá, porção encontrada em Bereshit (Gênesis) 12:1-17:27. Ali é contada o famoso chamado que D’us fez a Abraão, o “sai da tua terra e da tua parentela...”. Mas Lech Lechá pode ser traduzido como “vá ao encontro de você mesmo”. Estranho, não? Mas é aí que reside o significado profundo do termo. O Eterno sabia que o destino de Abraão era ser pai de uma grande nação, era viver fora da Babilônia, era ter Isaac, etc. Mas Abraão era completamente diferente dessa descrição no início de seu relato. Se ele não saísse “da terra e da parentela” ele seria alguém diferente do que o Eterno tinha para ele. É como se ele não fosse ele mesmo, pois o destino de Abraão era ser um Patriarca. Mas ele só atingiria isso se ele deixasse a situação confortável em que ele vivia, se ele se sacudisse, se levantasse e lutasse para atingir o potencial daquilo que o Eterno havia permitido para ele.  Nesse sentido, cada um de nós tem um Lech Lechá a fazer. E isso tem tudo a ver com alteridade, com individualidade, com um relacionamento pessoal e único com o Espiritual.
                Nesse sentido de Lech Lechá, estive pensando sobre o que Yeshua queria dizer sobre os dois caminhos, o largo e o estreito. Quero mostrar uma outra possível interpretação de todo o capítulo VII do livro de Mattityahu (Mateus), analisando todos os versículos à luz dos versículos 13 e 14, que é quando Yeshua cita esses dois caminhos. A interpretação que darei será diferente da interpretação usual dada aos versos 13 e 14, o que possível de ser feito sob uma ótica de interpretação bíblica judaica. Vou seguir o texto analisando os versículos em blocos, então sugiro para um melhor entendimento uma leitura prévia ou simultânea do capítulo VII de Mattityahu (Mateus). 
·         Versos 1 a 5: Yeshua começa mostrando algo do tipo “cuide da sua vida. Concentre-se em você mesmo, não nos outros. Cuide de realizar o Seu Caminho, Sua Missão, Seu Mazal, Seu Destino.” Desobedecer a esse ponto trará, certamente, tristes consequências.
·         Verso 6: Aquilo que é sagrado é, por definição, aquilo que é separado. No contexto de Lech Lechá, o que há de mais separado para alguém é a sua própria individualidade. Nenhuma outra pessoa possui uma individualidade como a tua. Abrir mão dessa individualidade é abrir mão do Lech Lechá. É dar sua própria vida aos cães, e, caso faça isso, eles a destruirão.
·         Versos 7 a 11: “Peçam continuamente...” Devemos continuamente buscar ao Eterno, perguntando-Lhe qual é o Nosso Caminho. Pois se pedirmos que Ele nos abra uma porta, Ele irá abrir não uma porta qualquer, mas a Porta pela qual devemos entrar, a Porta de nosso próprio Lech Lechá. Ele é nosso Pai: Ele abre as portas boas e fecha as portas más.
·         Verso 12: Yeshua ensina que devemos respeitar a individualidade dos outros, pois cada um de nós aprecia e gosta que nosso individualidade seja respeitada.
·         Versos 13 e 14: Nesse ponto Yeshua trás o magnífico conceito dos Dois Caminhos. Em relação ao Caminho Estreito, uma possível interpretação seja de que ele seja diferente e único para cada um de nós. Ou seja, ele é estreito justamente por apenas uma pessoa poder passar por ele e nenhuma outra. O Caminho Largo é acessível a todos, pois é o Caminho da Massificação, o lugar em que se perde a identidade e passa-se a fazer parte da grande massa – uma massa metafórica em que os ovos, o açúcar, a farinha, a manteiga e o fermento perderam todos a sua própria identidade e se tornaram uma massa única e indistinguível. É esse Caminho Largo o lugar onde as pessoas deixam a Missão que o Eterno as deu, visando seguir o que é mais fácil e cômodo. É o caminho que está em oposição ao Lech Lechá e que conduz à perdição, pois se não seguirmos os Planos do Eterno para nós, estaremos perdidos. “Poucos entram no Caminho Estreito”, disse Yeshua, não por conta de sua estreiteza (pois, nesse sentido, há um “Caminho Estreito” para cada um de nós), mas pela dificuldade que é cumprir o Lech Lechá, o “sair de nossa terra e de nossa parentela”. Fazer o que todo mundo faz, perder a individualidade, ser massificado, andar pelo Caminho Largo é muito mais fácil e confortável que trilhar na contra-mão do sistema, que andar pelo Estreito Caminho do Lech Lechá.
·         Versos 15 a 20: Uma vez que estiver no Estreito Caminho, tome cuidado com as pessoas que se aproximarem de você. Pode ser que eles queiram te oferecer um alimento apetitoso aos olhos e talvez até mesmo ao paladar, mas que será ruim a longo prazo, visto que esse alimento irá te engordar de tal forma que ficarás metaforicamente entalado no Caminho Estreito, tendo que perder tempo com dietas ou correndo o risco de ficar tão gordo que terás que ir pelo Caminho Largo.
·         Versos 21 a 23: Não é todo mundo que diz que cumpre seu Lech Lechá que realmente o cumpre. Baseado no bloco de versos anterior, analise os frutos dessa pessoa, se são frutos de alguém que preserva e faz o bem através de sua individualidade, ou se são frutos de alguém que demonstra frutos de origem massificada.
·          Versos 24 a 27: Existem testes diferentes em tipo e intensidade separados desde o Princípio pelo Eterno para cada um de nós, independentemente de qual dos dois Caminhos iremos trilhar. No Caminho Estreito de cada um estão as ferramentas apropriadas para se proteger desses testes. No Caminho Largo, as ferramentas são impróprias e inúteis. Um homem estava destinado desde o Início dos Tempos a enfrentar uma terrível tempestade. Se ele fosse pelo Caminho Largo, iria encontrar apenas a possibilidade de construir uma casa sobre a areia, quando a tempestade viesse, ele estaria arruinado. Se tomasse seu próprio Estreito Caminho (Lech Lechá) ele teria a chance de construir a casa sobre a Rocha: quando a mesma tempestade viesse, ele estaria protegido. Essa parábola demonstra o poder do Lech Lechá.
·         Versos 28 e 29: o capítulo acaba lindamente ao dizer que “as pessoas admiravam esses ensinamentos de Yeshua, pois ele não ensinava como os ‘outros’ ensinavam, ele transmitia seus conhecimentos com uma ‘autoridade’ própria”, ou seja, a autoridade que alguém possui por andar em Seu Próprio Estreito Caminho – e essa autoridade (a Autoridade de alguém que é Autor) só pode ser obtida assim.


Edgard MacFraggin’ 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Dignidade de ser Diferente


Artigo baseado nos livros “A Dignidade da diferença – Como evitar o Choque de Civilizações”, “Para Curar um Mundo Fraturado – a Ética da Responsabilidade”, ambos do Rabino Lord Jonathan Sacks, “A Rosa de Treze Pétalas: Introdução à Cabala” do Rabino Adin Steinsaltz, “O Amor é minha Religião” do Rabino David Aaron e “A História do Povo de Israel” do historiador e embaixador de Israel Sr. Abba Eban.

                Falar sobre diversidade numa era de pluralidade vastamente percebida pela globalização é um assunto realmente difícil e igualmente necessário. Diversos povos, em todas as eras, passaram por aqui sem sequer saber da existência de diversas civilizações. De nem mesmo saber das dificuldades de outros povos, ou das mazelas que estes enfrentaram. Mas graças aos meios de comunicação instantânea, dificilmente alguém desconhece das mazelas da África, da pobreza da Índia, das guerras do Oriente Médio, das plantações de coca da América do Sul, etc. E nesse momento torna-se possível também uma expansão do “ame ao próximo como a si mesmo”. Hoje é possível com apenas um clique do mouse mandar dinheiro para vítimas de catástrofes naturais ou vítimas da fome em um continente distante. Existem novas possibilidades de se fazer o bem. Mas é justamente essa possibilidade por conta da proximidade que pode ser fonte também de confrontos sangrentos entre povos e culturas.
                Dizem que judeus gostam bastante de perguntas. Então começarei com algumas delas: será que existe dignidade em ser cristão? Será que existe dignidade em ser muçulmano? Ou mesmo judeu? Ou ateu? Ou homossexual? O Rab. Jonathan Sacks chama-nos atenção dizendo que “(a) diferença mais incomoda do que nos engradece”. Bom, pegando uma parte importante da história de Yeshua, um momento em que ele ratifica a Torá dizendo sobre os dois maiores mandamentos “O Eterno é Um, ame o Eterno de todo teu coração” e “ame ao próximo como a ti mesmo” (Mordechai “Marcos” 12:29-31) nos mostra qual deve ser a direção do nosso amor. O nosso amor deve olhar para fora. Deve olhar para um outro sempre, seja esse Outro o Eterno, bendito seja, seja o outro o nosso próximo. E se nos consideramos alguém ou algum povo ou devoto de determinada religião como inimigo, fica outro ensinamento de Yeshua: “ame teu inimigo” (Matityahu “Mateus” 5:44). Nós devemos amar as pessoas, independentemente de credo ou etnia. E acredito que isso passa pelas vias de estender a mão e de não colocar um peso sobre os outros como condição para os amar. Uma forma que gosto de sintetizar o “ame o próximo como a si mesmo” é da seguinte forma: Sinta de forma real a dor virtual de teu próximo. A dor do outro não pode ser sentida fisicamente por um terceiro. Mas em um nível virtual, ou mesmo espiritual, pode ser sentida. E isso nos impulsiona a agir. Agir para socorrer, estender a mão, estancar o sangramento do próximo, seja sangue no sentido físico como no emocional.
                Infelizmente, muitas vezes nós reinterpretamos ou mesmo nos esquecemos dos ensinamentos preciosos da Torá. Nós medimos o outro tomando como padrão a nós mesmos. Se alguém age diferente de mim esse alguém está inexoravelmente errado. E isso nos trava e nos atrapalha. Talvez o ponto que isso mais ocorra seja justamente no ponto mais pessoal da fé: na colocação das cercas. As cercas, de pessoa pra pessoa, são diferentes, até mesmo pela sua natureza. Yeshua nos ensina que “não devemos julgar” os outros (Matityahu “Mateus” 7:1). Os mandamentos, como citei no início do texto, se referem a “amar” e não a “julgar”. Só o Eterno, bendito seja, pode julgar alguém. Ninguém mais.
                Mas então, o que é amar? Segundo o Rab. David Aaron, amar o próximo é semelhante ao ato cabalístico da Criação: nós devemos abrir um espaço em nós mesmos (um “tsimtsum” pessoal” por assim dizer) para que outro diferente de nós possa habitar. “No princípio havia apenas eu...” Ele e o Rab. Steinsaltz enfatizam a importância de não se perder a própria identidade e de reconhecer a identidade do outro. Do atrito de duas identidades distintas surge então a energia, as faíscas explosivas do amor. E isso faz todo sentido: se devemos “amar o próximo como a nós mesmos” como vamos respeitar a individualidade do outro se não respeitamos ou mesmo cultivamos nossa própria individualidade? O Rab. David Aaron coloca "Se digo 'sim' apenas porque não consigo dizer 'não', não estou em um relacionamento. Perdi minha liberdade, minha identidade e meu senso de individualidade. Por outro lado, se tenho vontade de dizer 'não' porque tenho necessidade de afirmar minha independência, não aprecio que somos na verdade um só. Por que dizer 'não' quando compartilhamos um ser? Aqui está uma oportunidade de expressar nossa unidade. Amor significa que sou capaz de dizer 'não', porque não sou você e você não é eu. No entanto, escolho dizer 'sim' porque somos um. Não há conflito ou competição, nenhuma luta por liderança absoluta. Embora sejamos indivíduos distintos e muito diferentes, somos um e nos amamos." Isso é bastante profundo.

                Se perdermos nossa individualidade, perdemos a nossa capacidade de cumprir nosso mazal, nosso destino. O Rab. Steinsaltz afirma que "a pessoa mais 'elevada' do mundo não pode cumprir a missão da pessoa mais 'rebaixada'"  Quando chegarmos ao Mundo Vindouro, o Eterno não nos perguntará algo do tipo “Fulano, por que você não foi como Moisés, como David, como Abraão, ou Isaac ou Jacó?” Ele nos perguntará “Fulano, por que você não foi Fulano?” Este é um ensinamento da Ética dos Pais. Muita das vezes somos intransigentes consigo mesmo. Somos fundamentalistas contra nossa individualidade e muito mais contra a individualidade dos outros.
                Por definição, fundamentalismo é “atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios ou regras”. Assim sendo, pode-se pensar em fundamentalismo judaico, cristão, muçulmano, ateu, LGBT, etc. Qualquer tipo de comportamento humano é passível de ser fundamentalista. Vemos um período assim na própria história do povo de Israel. No período entre a Revolta Macabéia e o nascimento de Yeshua, o poder passou dos gregos para os judeus, mas depois os judeus perdem sua soberania para os Romanos. E o que aconteceu nesse intervalo? Abba Eban coloca que esse período foi marcado pelas expansões territoriais engendradas pelo rei e sumo-sacerdote João Hircano, seguido posteriormente por seus filhos, que era sobrinho do próprio Judá Macabeu. Ele cobrava impostos pesados do povo e os investia em poderio militar. Chegou a anexar os territórios da Samaria, Transjordània e Iduméia. Além disso, forçou que esses povos dominados fossem obrigados a praticar o Judaísmo como religião, algo completamente proibido pela Torá, ou seja, de forçar alguma pessoa a cumprir a Torá. Isso teve um alto custo para o próprio povo judeu: Herodes era um idumeu que fora forçado a cumprir a Torá. Portanto, ele nutria um ódio todo especial contra o nosso povo e colocou esse ódio em prática. Pouco antes do nascimento de Yeshua, os saduceus armam contra o próprio povo e ajudam os Romanos a dominar sobre Israel. Talvez esse episódio da história de Israel seja bastante desconhecido, mas houve sim fundamentalismo judaico no passado. Na Idade Média vemos um forte fundamentalismo cristão, e mais recentemente, fundamentalismos islâmicos, político, ateu, LGBT, etc. Todos esses movimentos fundamentalistas são chamados pelo Rab. Sacks de o “Espírito de Platão”, ou seja, "o que é diferente de mim me ameaça, devo destruí-lo". E esse destruir o diferente é necessariamente “não amar o próximo”.
                A estrutura de pensamento que domina todo o ocidente, das religiões às ações políticas e científicas, é uma estrutura de pensamento grego. Oras, será que ao sair de uma estrutura de pensamento grega deve-se apenas colocar um recheio judaico? Ou será que é importante mudar a estrutura de pensamento de grega para judaica? Eu diria que não é apenas importante: é essencial. Vejamos agora a questão da diferença entre Mandamentos e Cercas. Mandamento é aquilo que a Torá diz que tem que ser, e não é discutível. As cercas são colocações pessoais, autolimitações, visando-se que não se saia do caminho proposto pela Torá. Assim, como exemplo, um ex-alcóolatra tem como cerca o nunca comer um bombom de licor, pois comer um desses pode-se tornar motivo de grande pecado para ele. Mas não é por isso que comer bombom de licor se torna um pecado: ele não pode exigir essa dieta de mais ninguém além dele mesmo. Quem tem dificuldade nessa área é ele, não os outros. Para muitos, comer um bombom de licor é um prazer lícito. Caso contrário, acaba-se entrando em doutrinas que fogem da Torá e que afirmam coisas do tipo “jogar futebol é pecado” ou “mulheres que usam maquiagem são pecadoras”. Isso é um completo absurdo. A Torá permite tudo isso. Mas além de se imporem regras absurdas, as pessoas querem que os outros as cumpram, colocando um peso desnecessário, um peso que está fora dos padrões da Torá nos outros. Ninguém fica mais elevado espiritualmente pelo simples fato de não usar bermuda, ou de não escutar determinado tipo de música ou ver determinado filme. Claro que ninguém irá de bermuda pra um Serviço da Sinagoga, nem irá escutar musicas ou assistir filmes que falem de idolatria. Entretanto, a Torá não nos proíbe de ir ao cinema, de escutar musicas de estilos diferentes e de usar bermudas. São exemplos simples, entretanto, bons exemplos. Se alguém se abstém de escutar Rock n' Roll, ótimo. Mas ele não pode exigir isso de mais ninguém, pois a Torá não proíbe escutar Rock. Entretanto, alguém que teme o Eterno não deve escutar músicas de Rock que falem de idolatria ou que blasfemem contra o Eterno – músicas que também existem no meio do Rock. Só como título de exemplo, existem vários judeus, até mesmo rabinos, que fazem parte de bandas de Rock (vide o chassídico Menachem Herman cantando “Sweet Home, Sweet Jerusalem” – clique aqui no link). Em Romanos 14:3, Sha’ul afirma que “quem come verduras não julgue o que come carne, nem vice-versa”. Creio que devemos ir por aí. Um outro exemplo: o que é pior? Fumar um cigarro ou comer carne de porco? Bom, a Torá proíbe categoricamente o comer porco, mas não nos proíbe de fumar. Existem diversos rabinos e judeus que fumam, por exemplo. Mas fumar pode-se tornar um grande pecado? Sim, pode. Fumar no Shabat e nas Santas Convocações é um grande pecado, pois é proibido acender fogo nesses dias.
             O Rabbi Akiva e seus discípulos exemplificam isso no lamentável episódio da praga de mortandade. Rabbi Akiva ensinava que devemos “amar ao próximo como a nós mesmos”. Então seus discípulos entenderam que “amar o próximo como a si mesmo” significava “não deixe o teu próximo errar”. Assim, se corrigiam a todo momento. Mas a coisa foi ficando mais séria, e, visando impedir que o próximo cometesse um erro, começaram a se agredir fisicamente. Isso desagradou o Eterno, e os discípulos começaram então a morrer, morrendo 24.000 deles, terminando essa praga em Lag BaOmer. E é esse tipo de erro que não devemos cometer. Não devemos colocar ou impor nossas próprias cercas nas demais pessoas.
                A Torá nos ensina que não devemos aprender sobre os costumes idólatras dos outros povos. Não deve haver sequer ecumenismo. Entretanto, não podemos desprezar os demais povos. E cada um deles deixou um boa contribuição para a humanidade, que nós judeus utilizamos. Os ternos (tão usados ternos pretos e camisas brancas) foram inventados por franceses católicos da corte do rei Luís XIV no século XVIII. Os chineses inventaram o papel-moeda, bússola, garfos, macarrão, carrinhos-de-mão, pipas, escova de dentes e papel-higiênico. Os árabes, o hábito de beber café, xampu e instrumentos cirúrgicos (muito semelhantes ao que usamos até hoje).  Protestantes criaram o automóvel e a caneta esferográfica. O Facebook e a lâmpada foram criados por ateus. Um hindu inventou o computador pessoal. Os gregos, a medicina e o método científico. Os óculos então devem ser  um dos objetos mais “pagãos” que existem: o vidro foi criado pelos egípcios, o óculos pelos gregos, sendo posteriormente aperfeiçoados por monges católicos e muçulmanos. Quem vos escreve usa óculos e talvez você que está lendo também.
                O Rab. Jonathan Sacks pondera que existe 1 versículo para "amar o próximo" e 36 versículos para amar o estrangeiro. Os sábios da Mishná afirmam que o canto do campo, as espigas caídas devem servir para os pobres, até mesmo os pobres de outros povos, ainda que estes sejam idólatras. Na Ética do Sinai temos o episódio de Pai Abraão e o idólatra de 70 anos de idade. Pai Abraão pede que este homem apenas agradeça o Eterno pela refeição que teve, mas ele se recusa. Abraão então o expulsa com raiva. O Eterno então pergunta a Abraão: “Eu tenho suportado esse idólatra habitar em Mim por 70 anos e você não pode suportá-lo por cinco minutos?” Quando os egípcios se afogaram, os anjos quiseram comemorar. Mas o Eterno os proibiu e lhes disse: “Minhas criaturas se afogaram e vocês estão celebrando?” O Eterno ama a todos os povos, Baruch HaShem.
      Assim, volto a minha pergunta inicial: existe dignidade em ser cristão? Existe dignidade em ser muçulmano? Ou mesmo judeu? Ou ateu? Ou homossexual? É claro que existe, em todos os casos. As pessoas não representam os erros de seus movimentos. Todas elas são a Imagem do Eterno. E será que existe dignidade em ser à Imagem do Eterno? É óbvio que sim. O Eterno nos deu liberdade. Quem somos nós para querer se colocar no lugar dEle, que Ele não permita, e querer podar a liberdade dos outros? Ainda, há espaço para o Bnei Noach no Judaísmo – os rabinos ensinam que não há necessidade de se tornar um judeu! Segundo o site do Chabad, o próprio Maimônides era o médico pessoal do Grande Vizir Alfadhil e do Sultão Saladin, ou seja ele cuidava da vida e da saúde desses lideres muçulmanos. Há dignidade em ser judeu, cristão, muçulmano, ateu, etc, pois há dignidade em ser a Imagem e Semelhança do divino.
O Rab. Sacks ensina que a grande diversidade de produtos que existe no Mercado o engrandece e não o diminui. Nossas diferenças também nos engrandecem: cada povo contribuiu com sua própria cultura para a humanidade. Ai de nós se todas indústrias produzissem os mesmos produtos. Esse exemplo serve para mostrar que nossas diferenças nos engrandecem, ensina o Rab. Sacks. As relações de comércio sempre foram uma alternativa à guerra.
E como usar a individualidade para amar o próximo? Aqui entra a criatividade. Creio que cada um tem seu próprio pedacinho do mundo pra consertar. Hoje a internet facilita muito isso também. Basta querer, procurar, se informar que as possibilidades de “colocar a mão na massa” surgem. Que HaShem nos ajude nesse sentido.

Edgard MacFraggin'

domingo, 3 de novembro de 2013

Um chamado à Responsabilidade

 “Ama o próximo como a ti mesmo” Levítico 19:18.
Seis mil idiomas são falados ao redor do mundo hoje, mas apenas um deles é verdadeiramente universal: a linguagem das lágrimas” Rabino Jonathan Sacks
Vivemos em tempos difíceis. Vivemos em um mundo hedonista em grande parte, que valoriza o próprio indivíduo, a busca de satisfação pessoal mesmo em detrimento do bem-estar de outros. O Judaísmo vai de encontro a todo esse pensamento: é uma religião que praticamente não fala do “eu”. Fala do “Shemá Israel” e do “ama o próximo como a ti mesmo”. É sempre sobre um Outro ou sobre vários outros. É, assim, uma religião que exige uma Ética. Não apenas pregar, mas exercer ação. É a Ética da Responsabilidade.
Mas por que a pobreza é um problema? O rabino Jonathan Sacks afirma que a pobreza não dignifica a alma e nem a refina; ela faz apenas a pessoa se voltar para dentro de si, anestesiando sua sensibilidade, aniquilando o espirito e humilhando a própria alma. Os Sábios se recusam a romantizar a pobreza. Classificam-na como um mal implacável. Dizem que “numa casa a pobreza é pior do que 50 pragas”. Ainda, dizem que “a pobreza é uma forma de morte”. Vale lembrar-se de uma das rezas do Sidur que diz que “Os idólatras não louvam ao Eterno; nem os que descem à sepultura”. Uma pessoa pobre não pode servir a Hashem adequadamente. Os sábios afirmam que “se não há o que comer, não pode haver Torá”. Maimônides afirmava que era impossível direcionar a mente para coisas elevadas quando se tem fome, sede, dor ou falta de abrigo. A pobreza nos impede o correto relacionamento com o Eterno. Impede que desfrutemos dos prazeres lícitos que Ele fez para nós, para todos nós.
A Torá coloca claramente que todos nós que servimos a Hashem temos um dever social de cuidar do próximo. Devemos agir com responsabilidade. Segundo o rabino Jonathan Sacks, responsabilidade vem da junção de duas palavras: resposta e habilidade, i.e., ter habilidade em dar resposta de forma adequada aos problemas que existem no mundo. O Eterno, bendito seja, nos chama a ser Seus Sócios na Criação, afirmam os Sábios. Chama-nos a criar, a dar continuidade na Sua Obra. Nos chama também para retificar aquilo que foi quebrado. Recordo-me de um episódio da história de Moisés: o episódio em que ele quebra Tábuas da Lei. Estas haviam sido dadas pelo Eterno, já prontas. Agora, para ter as segundas Tábuas, Moisés teria que ele mesmo entalhá-las. Fica disso um princípio: “você quebrou, você conserta”. Nós quebramos o mundo inteiro, todos nós representados em Adão. Temos, portanto, o dever de curar a Terra, de consertar as fraturas, de juntar os fragmentos. A Cabalá Luriânica fala a respeito disso, dos fragmentos. Cremos que Yeshua foi o primeiro recipiente que se fragmentou: cada fragmento tem uma centelha de luz divina. E devemos juntar esses fragmentos, consertar essas fraturas, pois isto é o Corpo do Messias, o corpo do Adam Cadmon.
Existe um provérbio judaico que afirma que “as necessidades físicas do teu próximo são tuas necessidades espirituais”. Yeshua ratificou em Marcos 12:31 o que já havia aparecido em Levítico 19:18. Entretanto, compreender a dor de outra pessoa é praticamente impossível. Eu não posso sentir a fome de uma pessoa estando alimentado; ainda que tivesse fome, a minha poderia ser em nível menor que a de outra pessoa. O mesmo vale para ter sede, para estar nu, estar doente, etc. São coisas extremamente subjetivas, são coisas virtuais. Então, que fazer? Pensemos assim: sinta de forma real a dor virtual do teu próximo. Pode-se destrinchar “dor” em muitas coisas, entre elas fome, sede, doença, pobreza, nudez, tristeza, solidão, etc. Yeshua apresenta exatamente esses pontos em Mateus 25:35-40: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondeu-lhes: em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Isso nos mostra a profundidade da prática da fé judaica por Yeshua. Servir ao Eterno não implica apenas as rezas, ritos, etc. Tão certo também não é apenas fazer o bem aos outros. São as duas coisas, necessariamente. Como ratificado por Yeshua, “Shemá Israel e ama o próximo como a ti mesmo”. Isso é servir ao Eterno, bendito seja. As duas primeiras perguntas de Bereshit mostram isso claramente. “Homem, onde está você?” e “onde está teu irmão?” Isso mostra que nós além do dever de nos relacionar com D’us devemos cuidar de nossos irmãos. Caim perguntou “acaso sou eu guardador do meu irmão?” e a resposta para isso era “sim”. Somos responsáveis pelos nossos irmãos. O conceito de Simchá não pode ser entendido como algo solitário. É uma alegria que surge do compartilhar, do coletivo, de algo que existe justamente porque nós compartilhamos.  
Estava refletindo sobre a questão de Yom Kippur. Muitos de nós já participamos desse dia, fazendo um jejum completo de alimentos e líquidos por 25 horas. Espiritualmente falando, nos elevamos muito, é um dia de configuração espiritual única. Agora, fisicamente falando, é muito difícil. Ficar em pé, rezar por um dia inteiro, sem água, sem comida, sem nenhum prazer. E isso é apenas um dia. Os sábios falam que se alguém faz muitos jejuns, chegando a passar mal por isso, essa pessoa é duas vezes pecadoras. O Eterno nos deu prazeres lícitos, e estes devemos aproveitar. Nossos sábios ensinam que iremos responder no Mundo Vindouro por cada prazer lícito que deixamos de aproveitar. Agora, pensemos um pouco em tantas pessoas que passam pela experiência física do Yom Kippur praticamente todos os dias do ano! E elas não tem elevação espiritual alguma. Apenas sofrem. “Ama o próximo como a ti mesmo”: lembre-se do teu próprio sofrimento físico no último Yom Kippur quando alguém vier lhe pedir algum dinheiro para comprar comida.
O rab. Sacks afirma que “a vida é um chamado de D’us à responsabilidade”. Ainda, coloca que “nós aprendemos sobre D’us emulando-O mais do que O contemplando”. Vivemos em tempos em que conceitos espirituais profundos são substituídos por coisas frias e sem vida. Vivemos um tempo em que pessoas ditas religiosas delegam sua ação para o Governo, transformado a Ética que deveriam ter em Política, a obrigação moral em legislação fria e o envolvimento pessoal em órgãos públicos sem rosto (rab. Sacks). Lembro-me de uma vez que escutei um líder de determinado seguimento religioso afirmando que “nós [instituição religiosa] não temos o dever de fazer ação social; quem deve fazer isso é o governo”. Parecia que ele dava razão ao que Karl Marx disse sobre a religião: que ela é ópio do povo. Marx acreditava que a religião servia apenas para manter o Status Quo existente, dignificar a pobreza, justificar doenças e conter as massas. Ele acreditava que para o mundo melhorar a religião deveria simplesmente desaparecer. Não podia estar mais enganado. Ele, um neto de rabino, não compreendeu o que é o Judaísmo. Judaísmo é uma religião que surge não da aceitação do Status Quo, mas de uma revolta contra ele. Não aceita o conformismo. Abraão nosso pai vivia em meio à idolatria e ele se rebela contra isso trazendo a prática do monoteísmo à Terra de forma ininterrupta até nossos dias. Ele se levantou justamente contra os impérios politeístas egípcio e mesopotâmico – sendo que estes sim usavam a religião para glorificar os reis/faraós, oprimir o povo e conter as massas. O Judaísmo começa dando liberdade a um povo escravo, e não o escravizando.

O Pirkê Avot nos conta que certa vez um homem muito rico foi dar uma festa. Ele tinha 20 conjuntos belíssimos de talheres de prata e convidou outras 19 pessoas para jantar com ele. Estava tudo pronto: 20 lugares dispostos na mesa e os conjuntos de talheres em seus lugares. Os convidados foram chegando um a um e tomando seus lugares. O último convidado chegou, sentou-se a percebeu algo estranho: ele não tinha talheres. Foi falar então com o anfitrião da festa sobre isso. O anfitrião lhe disse que tinha talheres para todos e que se não havia talheres para ele apenas uma coisa poderia ter acontecido: algum dos convidados estava com dois conjuntos de talheres. Isso ilustra bem o que aconteceu com o nosso mundo. O Eterno criou recursos naturais para todos, o sol brilha para todos, o ar é de todos, os recursos aquáticos e terrestres também são de todos. Entretanto, nem todos têm o que o que comer ou que beber, por exemplo. O que se deduz disso: se alguns não têm, significa que outros têm mais do que deveriam, estão com as partes que são de outras pessoas. Existem muitas pessoas sofrendo de obesidade mórbida nos Estados Unidos, enquanto outras morrem de inanição na África. Onde está a justiça nisso? É nosso dever fazer essa justiça, dar àqueles que não têm o que o Eterno proveu a cada ser humano.

Certa vez perguntaram ao rabino Chayim de Brisk (1853 – 1918) quais eram os deveres de um rabino. Ele respondeu que era o de “aliviar a dor daqueles que estão sozinhos e abandonados, proteger a dignidade do pobre e salvar o oprimido das mãos do opressor”. E será que esse é um dever exclusivo de um rabino? Creio que não. O rabino fica de costas para a congregação durante o serviço ao Eterno, pois ele também tem que prestar o seu serviço ao Eterno. De modo semelhante, temos uma missão semelhante a do rabino quanto ao próximo, Yeshua mesmo nos ensinou isso. O rabino Chayim de Brisk era um homem que vivia endividado por ajudar os outros. Apesar disso, no inverno ele deixava as portas de sua madeireira aberta para que os pobres pudessem lá entrar e pegar lenha sem ter que passar pela humilhação de ter que pedir. Quando madeireiros não-judeus o questionavam sobre isso, por conta dos supostos prejuízos que isso causavam a eles, ele respondia que “estava economizando dinheiro para a saúde pública”. Caso não fizesse assim, iria acabar pegando uma pneumonia, visto que não teria coragem de acender sua própria lareira sabendo que outras pessoas não tinham como se manter aquecidas.  
Certa vez, o Rebe de Kamiker decidiu passar um dia inteiro recitando Salmos. O maguid de Tsidnov mandou que um mensageiro lhe chamasse. Ele disse ao mensageiro que iria mais tarde, pois ainda queria recitar mais Salmos. O mensageiro foi ao maguid e voltou ao Rebe dizendo que o maguid precisava dele com urgência. Quando o Rebe encontrou o maguid este lhe perguntou o motivo de tamanha demora, pois o maguid desejava que o Rebe saísse para coletar dinheiro para um homem pobre. Quando soube que o Rebe demorou por estar recitando Salmos lhe disse: “Salmos podem ser entoados por anjos, mas apenas seres humanos podem ajudar os pobres. A caridade é mais importante que do que recitar Salmos, pois os anjos não podem fazer caridade”.
Todas as sextas-feiras antes do sol nascer, o Rebe de Nemirov desaparecia. Não era possível encontrá-lo nas sinagogas ou em casas de oração. Sua casa ficava com as portas abertas, mas ele não era encontrado ali. Um homem de outra cidade ao saber disso perguntou aos discípulos do Rebe para onde ele ia. Eles responderam que certamente ele ia aos céus pleitear pela paz, sustento e saúde para a cidade. O forasteiro ficou incrédulo quanto a isso. Decidiu então desvendar o mistério: se escondeu na quinta-feira a noite e seguiu o Rebe sem que ele percebesse. O Rebe saiu de casa vestindo roupas comuns e carregava um machado; seguiu até a floresta, derrubou uma árvore e a dividiu em pedaços de lenha. Pegou a lenha e voltou para uma um parte afastada da cidade, numa ruazinha distante do centro. Bateu na porta de um casebre e uma senhora idosa, pobre e adoentada abriu. Ela lhe perguntou quem ele era e ele disse que estava vendendo lenha muito barata, quase de graça. A senhora disse que não tinha dinheiro. Ele disse que daria crédito a ela; ela respondeu que não teria como pagar posteriormente. Ele disse: “a senhora não confia em D’us? Ele fará que eu seja pago”. A senhora disse que não teria condições também de acender o fogo e ele o acendeu. Enquanto o acendia, ele recitava em voz quase inaudível as Bênçãos Matinais. Depois disso, ele voltou para a casa dele. O homem que o seguia se tornou então um discípulo dele. E quando escutava alguém dizer que nas sextas o Rebe ia aos céus, ele dizia “e talvez até além”.
Quando do episodio de Mordechai e Ester, Mordechai lhe disse que se ela se calasse perante aquela situação, o Eterno levantaria outro homem para trazer livramento aos judeus, mas que talvez o motivo dela ter chegado ao reinado tenha sido exatamente esse (Ester 4:14). Se não fizermos o que devemos fazer, talvez outros o façam, mas nunca teremos cumprido a que o Eterno nos deu a fazer aqui.
Mas então, como fazer tsedaká? Maimônides ensinava que existem oito formas diferentes de fazer, com diferentes graus de elevação. Falarei da mais elevada para a menos elevada:
1)      Tirando um necessitado da situação de pobreza: dando-lhe um presente ou empréstimo, acolhendo-o como sócio, ajudando-o a conseguir um emprego. Retirando dele a situação de humilhação por necessitar de outros.
2)      Doar secretamente: quem doa não sabe para quem vai, quem recebe não sabe de onde veio.
3)      Doar anonimamente: o doador sabe para quem vai, mas quem recebe não sabe de quem veio;
4)      Beneficiado sabe de onde veio: o doador não sabe para quem vai. Muitos sábios amarravam moedas nos seus xales e as jogavam para trás, de forma que os pobres podiam pegá-las sem ter que passar pela humilhação de pedir.
5)      Ajudar um necessitado antes que ele peça;
6)      Ajudar um necessitado depois que ele pede;
7)      Dar menos do que o pobre necessita, mas de forma amável;
8)      O mais baixo grau é o daquele que doa de má vontade.
O povo judeu é um povo interessante. O midrash pergunta “quem é que pode entender esse povo? Quando lhe pedem uma contribuição para fazer um bezerro de ouro, eles dão. Quando lhes pedem uma contribuição para a construção de um santuário, eles dão”. Tsedakah se aloja muito perto da essência do que é ser um judeu. Os rabinos afirmam que se “uma pessoa é cruel e sem compaixão, há razão suficiente para desconfiar de sua ancestralidade”.
Vale ressaltar que ajudar um pobre não significa adotar a pobreza para si mesmo. Nenhum carente foi ajudado por saber que um santo tomou o seu partido. Foi ajudado porque teve a chance de não ser pobre. Existe também um princípio que mesmo uma pessoa que recebe tsedakah deve dar tsedakah. Observa-se isso claramente em uma das partes do filme “Ushpizin”, quando Moshe Belanga, depois de receber uma tsedakah que muito precisava, separa uma parte e dá de tsedakah para o Ben Baruch.
Mas quem é esse nosso próximo? O rabino Meir Melamed comenta que Jacó chama a uns pastores desconhecidos, sem distinção de nacionalidade de “irmãos”. Os sábios no período da Mishná ensinaram a prática do “Darkê Shalom” (Caminhos de Paz). Eles diziam que “em benefício da paz, deve ser permitido aos gentios pobres apanhar as espigas deixadas no campo depois da ceifa, recolher os feixes esquecidos e colher dos cantos do campo; (...) devemos sustentar os gentios pobres como sustentamos os do nosso povo, devemos visitar os gentios doentes como visitamos os nossos e devemos sepultar os deles como sepultamos os nossos”. Vale lembrar que o período da Mishná os judeus estavam na Diáspora. Eram minorias que tinham conhecido a assimilação ou a revolta armada, e nenhum desses caminhos havia dado bons resultados. Assim, propõem um novo caminho, os Caminhos de Paz. Esse caminho não significa ter paz, mas criar ações que possam levar a uma boa convivência. Dificilmente teremos paz no meio de idólatras. Mas devemos fazer o bem, compreendendo que cada ser humano possui uma fagulha divina dentro de si.
O rabi Eleazar costumava dar uma moeda a um pobre antes de recitar suas preces; ensinava que está escrito “através da caridade, eu verei Tua face” (Talmud da Babilônia, Baba Batra 10a). Lembro-me de grupos que faziam evangelismo nas madrugadas de determina cidade. Durante as madrugadas, aquilo que é considerado como escória da sociedade está nas ruas. Prostitutas, travestis, dependentes químicos, mendigos, etc. Cansei de ver cenas de pessoas que vinham pedir dinheiro para voltar para casa ou para comprar comida. A resposta padrão era “eu não tenho dinheiro, mas veja, pegue um folhetinho do JC”. Aparentemente o sofrimento alheio não tinha nenhum problema (principalmente porque quem podia ajudar não estava sofrendo). Parecia ainda que este mundo físico aqui não importa para nada. A pessoa que evangelizava a outra estava fazendo uma “grande bondade”: estava livrando a alma do outro do inferno (como se humanos pudessem determinar quem está salvo e quem está condenado). Ou seja, se a pessoa recusava a “salvação” contida naquele folheto do JC era culpa dela ainda sofrer. Ela estava rejeitando um futuro “bom”. E o pior, depois que acabava o evangelismo e de falar que não tinham dinheiro, o grupo seguia para uma lanchonete pra lanchar. De graça é que o lanche não era. E eu de tudo isso porque durante algum tempo participei desse grupo. Foi bom, mas no sentido de perceber como a mensagem pura e bela da Torá está deturpada. Foi bom no sentido de me fazer olhar a Torá como algo precioso e profundo. Aprendi a lição do que não fazer.
Se alguém lhe pede comida, dê. Se alguém lhe pede água, dê. Quem somos nós para julgar o interior do outro? Que o Eterno nos abençoe e nos ensine a amar e cuidar desse próximo, não como queremos, mas como Ele quer que façamos.
Edgard MacFraggin'

Referências
“Para curar um mundo fraturado”, Rabino Jonathan Sacks, Editora Sêfer.
“A Ética do Sinai”, Irvin Bunim, Editora Sêfer.
“Torá: a Lei de Moisés – com tradução e comentários pelo Rabino Meir Matzliah Melamed”, 3ª edição, Congregação Religiosa Israelita Beth-el.